segunda-feira, 12 de setembro de 2011

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E se fez o silêncio. E é isso que não consigo suportar. Esse vão que suga as palavras e me coloca a anos luz de você. Um vácuo onde o som não se propaga. Há um universo inteiro sem prosa nem verso, canções e gargalhadas cúmplices, que nos afasta. Embora você esteja tão perto que, se eu sussurrasse ou deixasse escapar qualquer pensamento em viva-voz, você seria capaz de ouvir. Talvez você até me respondesse galante. As palavras gostam de você porque as trata com gentileza e devoção, mas também porque as seduz, pega de jeito para fazê-las suas. Poucos sabem dominá-las com tanta maestria. Por isso eu também gostei de você. Sou uma palavra, mas aquela que escapa. Foge, se esconde arredia, precipitando o ponto final. Foi o que fiz. Deu medo de chegar ao fim. E fui tomando distância a cada palavra não dita, a cada bom dia reprimido, a cada resposta que te neguei fazendo parecer que era uma mera distração. Não era. De propósito, joguei tudo neste poço sem fundo, neste talho que se fez entre nós. E em toda esta mudez só o que grita é a saudade de quando havia toda aquela conversa meio sem sentido que nascia porque a gente buscava um pretexto. Daquele tempo em que músicas diziam o que a gente não tinha coragem de dizer. Daquelas vontades que a gente se confidenciava baixinho no ouvido para ninguém saber do nosso segredo. Dos nossos sons que se propagavam em 40 metros quadrados e abafava todo o mundo lá fora. Daqui, do meu canto, emudecida, fico medindo esta distância toda que eu tomei com você tão perto, imaginando que palavra me levaria de volta a você. E me pergunto: neste vão de silêncio, as palavras não ditas poderiam, talvez, quem sabe, um dia, ter virado um romance?


terça-feira, 12 de abril de 2011

CRESCER DÓI


Ele não tinha se machucado, não lhe tomaram o brinquedo preferido e ninguém havia se recusado a lhe contar uma história. Mas o pequeno da família, Raul, chorava com toda a força dos seus três anos. Os pulmões pareciam não dar conta e o ar começava a faltar. Não era birra, mas um choro sentido para dar vazão a uma dor insuportável: crescer.

- Tá doendo a perna! Tá doendo! – começou a gritar, de súbito, o pequeno.

Não sei se é sabedoria popular, lenda familiar ou se a tese encontra respaldo na medicina, mas conta-se que quando a perna dói na infância é porque os ossos estão esticando. É assim que a gente aprende que crescer carece de um certo padecimento.

Eu deveria ter mais ou menos a idade de Raul, quando reclamei pela primeira vez do mesmo mal. E segui em lamúrias por toda a infância. Pela altura que tenho hoje, 1,77m, dá para se imaginar o tamanho do meu sofrimento.

Nessas horas aparecia minha avó com um pote de arnica – “um santo remédio” – para fazer uma massagem especial. Era mais um carinho, que, se não fazia a dor da perna passar imediatamente, acalmava a alma e aliviava o medo de crescer.

Depois que soube a verdade sobre o incômodo nas pernas, não sabia se chorava mais de dor ou por temer ser grande. Mas o tempo é implacável. E as dores iniciais nas pernas vão ficando pequenas diante das outras que a gente vai enfrentando sem a mesma disposição de chorá-las em público e gritá-las ao mundo.

Gente grande é tão esquisita, Raulzinho. Arruma dor de cabeça e morre de dor-de-cotovelo. Reclama de dor no bolso ao pagar o médico que dê jeito nas dores da alma. Prefere ter uma dor de barriga por semana a ter uma única dor de coração a vida inteira.

E o pior é que nesta dor de amor não há arnica que dê jeito.

quarta-feira, 16 de março de 2011

INSPIRADAS

Estou encantada pela obra da jovem artista plástica Camila do Rosário, de Florianópolis. Mais um desses talentos da arte digital e que a gente descobre, meio por acaso, na internet. Traços femininos e delicados, que buscam suas referências na moda e na literatura.

A ilustração abaixo me deixou especialmente emocionada por resgatar um poema de Ana Cristina Cesar - e um período em que Ana C. era minha companhia mais constante.

Inspiradas e inspiradoras essas moças.



P.S.: Para adquirir posters de Camila do Rosário vá ao Urban Arts.





segunda-feira, 14 de março de 2011

"DESENHE SEUS PRÓPRIOS PÉS"

Para Edma Nogueira

Cá estou a fazer o contorno dos meus pés, seguindo um antigo conselho seu, o mais sábio que ganhei e pelo qual teria investido uma boa quantia: “Desenhe seus próprios pés.” Observo as extremidades deles e encaro as deformidades não corrigidas na infância – e que um dia você notou, lembra? Seria essa a razão para passos, às vezes, tão vacilantes?


Nunca soube pisar duro, vou na ponta dos pés.

Passo o lápis rente à pele, o seguro firme para não escapar o traço. É para entender melhor os caminhos que meus pés vão apontar. “Vá por onde eles indicarem”: essa foi a segunda parte do seu conselho, que era um post-scriptum em o “Cântico Negro”, de José Régio. Aquele que diz: “Não, não vou por aí! Só vou por onde me levam meus próprios passos...”

E comecei a desenhar pelo pé esquerdo. O direito tem esse pressuposto de boa sorte que me incomoda. Quero o que vier e o que estiver pelo caminho. Dá medo, mas não há melhor modo para aprender, passo a passo, do que nas incertezas do próprio rumo. Garantias demais estragam as surpresas, intimidam o acaso. E o que eu mais quero é perder o fôlego a cada curva da estrada. Esta que meus pés acabam de me indicar.

Já sei por onde vou.

domingo, 13 de março de 2011

LUGAR NENHUM


"O lugar nenhum está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ele se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve o lugar nenhum? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar".

Eduardo Galeano

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

SWEET ROAD SONG

"...Tem espaço de sobra no meu coração..."

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

NO FRONT

Não adianta me provocar
Usar comigo estratégias bélicas
Eu não declaro guerra
Só te declaro amor

(20/05/2001)

domingo, 25 de julho de 2010

SÓ SOFRO EM PARIS

É normal. Às vezes a vidinha segue muito mais ou menos. Não é sempre que ela pulsa vibrante, te dá flores ou é doce como chocolate ao leite. Tampouco é uma festa sem fim a ponto de banalizar o champanhe. Não é. E eu bem sei disso.

Aprendi ainda criança que não é todo dia que dá para fazer piquenique na cachoeira porque não é todo dia que tem sol. Tem dias cinzas, de melancolia arrastada, que chega a chover de tristeza. Mas aí, com a sabedoria infantil, a gente desenhava o sol em volta de um formigueiro, jogava sal e, como mágica, o céu abria. E era a coisa mais linda.

Apesar ser minha fruta preferida, percebi logo cedo que não era o ano inteiro que dava para comer jabuticaba no pé da árvore do quintal lá de casa. Era preciso esperar chegar a primavera e o verão. Demorava, mas, "quando menos se esperava", chegava.

O futebol me ensinou muito também. Impossível o meu Vasco ganhar todas, mas tem sempre um outro jogo em que a vitória liberta o grito de campeão, que outrora ficou engasgado. Perfeccionista, tive que aprender, não sem sofrimento, que erro com frequência. E assim me permiti ser mais humana.

O tempo passa, a gente aumenta as distâncias e descobre que alguns amigos se perdem na multidão. E, por isso, você gosta ainda mais daqueles que ficaram e se abre para que outros cheguem. Numa mesa de bar, num fim de noite, só por tê-los por perto você olha para o seu copo de cerveja pela metade e, definitivamente, acha que ele "está meio cheio".

Aí você se apaixona e nem sempre a recíproca é verdadeira. Dói, mas passa. E quando o amor acontece e, depois, acaba, você se lembra que leu uma crônica de Paulo Mendes Campos que dizia que o amor acaba "para recomeçar em todos os lugares." E é a mais pura verdade.

Foi então que, para economizar o dinheiro com terapia e abandonar o Prozac, tomei uma decisão na minha vida: só sofro em Paris. Chorar na beira do Rio Sena vira filme existencial francês. E é até bonito. No resto do mundo, é melhor tentar ser feliz. Mesmo na adversidade.

quinta-feira, 4 de março de 2010

SEI LÁ, MIL COISAS

Amanheceu chovendo, não percebi e fui de sandália para a rua. Vou ter que pular a poça logo ali mais adiante, mas de salto pode acontecer de escorregar. Não dá tempo de voltar para trás e trocar. Não dá nunca. E o calçado de hoje é apenas mais uma inadequação de tantas. Já fui vegetariana em um rodízio, vesti camiseta de rock para me acabar no samba, ri quando não podia, chorei quando não devia. Sou imprópria para coisas práticas. E desmedida para a vida. Dei amor demais, dei amor de menos. O conforto me inquieta. A instabilidade me motiva. Sou feliz na adversidade. Impaciente para dias calmos. Faço meu alicerce apenas no que não é palpável: um sentimento, um sonho, uma vaga ideia. Está aí mais uma possibilidade de escorregão. E sigo nadando contra a corrente, andando na contramão, vivendo de clichê num mundo tão original.

Sei lá, mil coisas... E o pior é que hoje ainda estou sentindo frio nos pés.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

FÉRIAS DE MIM*

Às vezes, eu me canso. E não é só o cansaço do trabalho, é também o da minha dedicação continuada ao ócio. Não é apenas a exaustão de uma rotina de compromissos, é ainda a imprevisibilidade do que me espera num dia vazio. É o resultado das noites sem dormir e dos dias em que não consegui abrir os olhos.

Das longas caminhadas ao sol e após horas estirada numa rede na sombra, costumo chegar ofegante. Falta-me o ar. Suor. Dor no peito.

Trago nos ombros – cada vez mais arqueados – o peso das grandes obrigações e das pequenas irresponsabilidades. É a fadiga de quem corre contra o tempo e de quem vê, sem reação, o tempo correr contra.

Sinto-me sem forças para continuar e sem energia para parar. Seguir em frente ou voltar atrás, tanto faz. Será quase um esforço sobre-humano para quem traz desde sempre o cansaço da vida toda - a que se foi e a que há de vir.

Quando me repito em antigos dilemas existenciais e quando me inauguro em novos conflitos pseudofilosóficos, eu me canso – e aos outros também, mas não mais que a mim. E sigo cansando-me, cotidianamente, com meu repertório de acalorados discursos insensatos e com a lucidez apática da minha mudez.

Ah, como estou farta de tantos sonhos e não ter planos. De procurar tanta gente e não me encontrar em nenhuma delas. De me livrar (de tudo) e de me prender (a nada). De correr e não sair do lugar. De parar e continuar indo. De estar do lado certo e ir sempre na contramão. De inspirar. De expirar.

Tudo isso me cansa. É necessário dar um tempo de mim. Preciso de férias: pernas para o ar e para que te quero. Volto (a mim) em breve.


*Publicada originalmente no Mimeographo