sábado, 28 de agosto de 2004

PÁGINAS RASGADAS

Sempre tive mania de rasgar coisas:
Rasgava por bagunça, de egoísmo, de birra, de ódio e até de alegria.
Mas, sobretudo, rasgava com prazer. E que prazer...
Os desenhos da menina pulando corda que minha mãe achava bonito, eu rasgava.
Trabalho escolar, rasguei muitos. Principalmente, os que eram feitos em cartolina
(Coisa sem sentido obrigar uma criança fazer margem em papel!).
Cadernos com orelhas, provas com nota baixa e bilhetinho da professora,
Tudo foi devidamente despedaçado.
Às vezes, em um acesso de fúria, em outras às gargalhadas,
Mas picotava tudo para que os pedaços não dessem origem a um quebra-cabeça.
Depois foram as poesias,
As cartas não enviadas – e algumas recebidas,
As crônicas que não se pareciam com as do Rubem Braga.
Nem meu inocente diário escapou das minhas mãos ágeis.
E assim passei boa parte dos meus 23 anos,
Rasgando tudo o que via pela frente,
Tudo o que não queria
E, muitas vezes, até o que queria, mas achava que não;
Tentando arrancar pedaços da vida para mais tarde fazer uma colagem perfeita.
Não deu muito certo.
Agora, eu inventei que quero mesmo é “rasgar o verbo”,
Fazer da vida, o tal livro aberto
E, quem sabe, recuperar as tais páginas rasgadas.