terça-feira, 28 de setembro de 2004

INSPIRAÇÃO

Sem grandes pretensões literárias, eu vou juntar palavras para falar de mim. No passado — a infância quase completamente feliz e a adolescência rebelde-romântica. No presente — o descontentamento sem limite. E no futuro – antevendo o incerto e o duvidoso. Assim, não querendo nada, posso conjugar minha vida, confessar meus medos e até revelar meus segredos.


Se juntar bem as palavras, ainda posso falar dos outros. Claro, após um exercício criterioso de observação. A vida alheia sempre rende boas estórias. Aquela mulher que entrou chorando no banco. O velho na cadeira de rodas que me espera passar para dizer bom dia. A adolescente que cheira cola na praça. O bebê que chora desesperadamente. O vendedor que tenta me enrolar. E daquele que só ouvi falar. Todos seriam bons personagens. A condição de narrador me parece bem mais cômoda. E é. “Viver em voz alta” – uma definição do Rubem Braga – não é um ofício dos mais fáceis.


Embora não seja uma expert, eu posso tentar falar de política, futebol, música, cinema, e literatura. Do que acho certo e errado. Do que quero e do que não quero. Posso falar mal daquela chata que me persegue, da baixinha que espera o ônibus, da magreza da modelos, da minha vida de repórter e da apatia dos que me cercam. Eu posso até arriscar falar em céu, inferno, a língua dos homens e dos anjos. Se faltar assunto, eu posso inventar o que falar.

Eu só não posso falar de amor. Por pura falta de inspiração.

quinta-feira, 23 de setembro de 2004

SAPATINHOS VERMELHOS

Para Flávia, Renato e meu primeiro sobrinho. Ou seria sobrinha?
Hoje eu vou sair para comprar sapatinhos vermelhos. Minha amiga, daquelas que a gente escolhe para ser irmã, está grávida. Eu prometi a ela dar os sapatinhos vermelhos que devem ser usados no sétimo dia de vida do bebê. Dizem que é garantia de saúde. Mas se eu pudesse, faria mais. Além deste presente, sairia para comprar um conto de fadas, igualzinho às estórias contadas pelas avós. Só que com trilha sonora do Toquinho.

Nesse conto, todo dia teria sol pela manhã para brincar no quintal e chuva – sem raios ou trovões – no final da tarde para comer bolinhos com Nescau. Depois, não faltaria arco-íris com o pote de ouro no final dele. A noite não seria longa, mas linda com lua cheia, muitas estrelas e cometa disposto a dar carona para a criança que o observasse da janela.

Eu pagaria o que fosse para transformar todos as estórias que começam com “Era um vez...” em realidade. Principalmente, a do pé do feijão que leva ao céu. E se papai Noel e coelhinho da páscoa não existem mesmo, nesse conto eles seriam verdade absoluta, inquestionáveis. Ora, ora... Como duvidar deles com tanto brinquedo e ovos de chocolate para provar suas existências?

Tudo seria tão perfeito que os remédios teriam gosto de balas jujubas. Xaropes, de leite com açúcar queimado. E toda dor teria o mesmo incômodo de cócegas e acabaria no primeiro riso. O maior perigo seria descer do escorregador. O maior medo de balançar bem alto. A maior dificuldade aprender a andar de bicileta. Proibido seria cair da árvore e não subir nela para comer fruta no pé. Perder só se fosse partida de futebol ou um lápis de cor. Mais, pra quê?

Ah, nesse conto que eu queria comprar, toda professora seria bonita, toda criança passaria de ano na escola, teria um cachorro, comeria verdura e legumes sem fazer cara feia, ganharia toda a coleção do Monteiro Lobato, estudaria música e assistiria Saltimbancos no teatro. Passariam férias de julho na serra. As de verão, na praia - com muita água de coco e picolé. O único trabalho infantil seria guardar brinquedos. Terror? Só de brincadeira nas festas do dia das bruxas. Sofrer por amor? De jeito nenhum. Em contos de fadas não faltam príncipes e princesas encantadas.
Quando a primeira criança com direito de me chamar de tia nascer, talvez eu não tenha encontrado esse conto de fadas para comprar e dar de presente. Porém, tenho certeza, não faltarão a ela felicidade e amor. Seus pais lhe mostrarão, como naquele filme, que a vida é bela. E eu, que estou adorando ter ‘ficado para titia’, um dia vou contar a estória dos sapatinhos vermelhos. Começando exatamente assim:

“Era uma vez...”

sábado, 18 de setembro de 2004

MALAS PRONTAS

Esse desejo insaciável de mudança de onde vem?

Tanta inquietação e incompreensão das coisas sempre me colocaram em uma busca incessante pelo que parece inatingível, do novo. Embora, as novidades não surpreendam nunca e cansem tão rápido. A magia do impossível acaba no instante em que se descobre sua possibilidade, se algumas dificuldades forem superadas. Não restam vitórias a comemorar, nem conquistas a se orgulhar. Afinal, elas não têm mais nenhuma importância. E muda-se os planos novamente para procurar uma satisfação que insisti em não vir.


De casa, com meus pais, eu só me mudei uma vez. De cidade, sozinha, também. E isso é uma frustração, pois queria ter morado naquela casa com varanda em volta que minha mãe queria, mas meu pai nunca construiu; na mansão de três andares da minha tia e numa construção antiga de alguma cidade histórica. Também gostaria ter experimentado viver num barraco da Rocinha; na 5º Avenida; na república mista com quinze pessoas; na comunidade hippie de Visconde de Mauá; naquele apartamento quarto e sala no centro de São Paulo; numa casa colorida do Pelourinho ou numa quitinete mal-acabada de Copacabana. Mas gostaria mesmo é de nunca ter tido endereço.


Na época da escola, foram sete mudanças e gostaria de ter mudado mais. Faltou conhecer muita gente nos colégios em que não estudei. Nunca terminei um curso sem ter mudado de horário e turma. Quis mudar de faculdade várias vezes. Por mim, não ficaria mais de onze meses em um emprego. Sairia antes de ter direito a férias e arrumaria outro trabalho que me desse prazer. Minha sorte é que como repórter de assuntos aleatórios costumo me distrair bastante. Até mais do que poderia imaginar.

Nunca consegui ficar apaixonada um ano inteiro pela mesma pessoa. Talvez nem um mês. E, freqüentemente, acredito que nem um dia. Já quis me chamar Joana, Camila, Cecília, Beatriz, Júlia, Mariana e ter nome composto, mas alterar nome custa caro e devo continuar me chamando Jussara. Isso se eu não mudar de idéia. Poderia mudar de corpo, de gosto e o encosto do sofá. Não tenho mesmo muito apego a nada. E para quem não tem muitas certezas, mudar de opinião a cada troca de roupa é natural. Diria até saudável.


Eu também, como outros tantos inquietos e pretensiosos, já quis mudar o mundo. Comprei a camisa do Che Guevara, li o Manifesto Comunista, fugi da escola para ir a uma passeata de cara-pintada, votei no Lula e virei jornalista. Descobri que o mundo não muda, que as mudanças também cansam e, há tempos, ando mesmo com vontade de me mudar do mundo.


Às vezes, tenho a impressão que as malas já estão prontas


sábado, 11 de setembro de 2004

COLEÇÃO


Gostar de vermelho e vestir-se sempre de azul deveria significar apenas um lapso cromático. Mas, em se tratando de você, revela mais uma de suas muitas incoerências. Ou acredita que consegue esconder do mundo sua coleção de antíteses?
Euforia melancólica.
Atiramento tímido.
Sabedoria estúpida.
Crença descrente.
Inquietação sem ação.
Loucura lúcida.
Nada em você faz muito sentido. É incongruente. Desconexo. Não combina. Não se compreende. Nem se explica. Confunde.
Quando pensa é uma. Quando age, outra.

Antagonismo que não tem fim.


sábado, 4 de setembro de 2004

VELHOS AMIGOS


De repente, estávamos os quatro dentro do carro. Um reencontro arranjado pelo acaso e os velhos amigos da época de faculdade juntos de novo. Estávamos tão à vontade, como se tivéssemos acabado de matar a aula de telejornalismo para ir ao bar da esquina. Assim, depretensiosamente, nos conhecemos e quando nos demos conta já tínhamos comemorado sucessos, lamentados tristezas e revelados segredos até então inconfessáveis. Enfim, “aberto os desvãos da alma” uns aos outros, como definiu um escritor barato que gosto muito. Viramos companheiros, cúmplices, confidentes, amigos.

* * *

Não me lembro exatamente como conheci a Flávia – que deu uma força ao acaso me convidando para encontrá-la no shopping. Talvez, como eu sempre chegava atrasada, por falta de outro lugar na sala de aula, tenha me sentado próximo a ela um dia. Noutro, o mesmo lugar estava vago e me sentei lá de novo. Uma vez não tinha lugar e eu puxei uma cadeira pra perto dela.

Nessa época, a Flávia já mantinha relações comerciais com o Wandel, que vendia cópias das apostilas para meia dúzia de colegas que faziam trabalhos com ele. Um dia sobrou uma apostila e eu tive o privilégio de comprar um texto para aula de sociologia com o “senhor Xerotsky” (eu ia explicar o que significa isso, mas é piada íntima). Noutro, coincidentemente, também alguém deixou de comprar a tal cópia. Começaram a sobrar muitas e, quando percebi, tinha entrado para o seleto grupo de compradores de xerox do Wandel.


O Max não era da mesma turma. Estava um ano à frente na faculdade e conheceu o Wandel nas caronas com a professora – e musa – Bia Pacheco. Um dia, Max passou no corredor e falou “oi” comigo. Noutro, parou e trocou algumas palavras. Até que, certa vez, ele invadiu o jornal-laboratório e me avisou que tinha uma vaga de estágio me esperando no Núcleo de Comunicação da faculdade. “Eu acho que vou gostar de trabalhar com você”, justificou Max, que também era estagiário, porém, de tão influente, fazia o departamento da faculdade dispensar o processo seletivo. Foi por ele que, quando consegui um estágio em um jornal, a Flávia ocupou a minha vaga.

E, assim, já eram todos amigos. Ao invés de guardar meu lugar na sala, a Flávia passou a chegar atrasada comigo nas aulas e sair cada vez mais cedo – principalmente quando tinha vernissage, e vinho, na galeria de artes. Quando Wandel deixou de vender cópias, elas já haviam deixado de ser um pretexto para que eu pudesse procura-lo. E, embora não trabalhássemos mais juntos, Max e eu continuamos a ter muitos assuntos. Mais tarde, Flávia, Wandel e Max foram trabalhar na mesma emissora de televisão. Pronto, éramos inseparáveis.

No intervalo, no quiosque, no Point, nas caronas, nas “roubadas”, estávamos os quatro amigos. Senão todos juntos, divididos em duplas – que se formavam conforme a oportunidade. Assim ninguém andava sozinho. Graças a esse nosso acordo inconsciente, pois ele nunca chegou a ser formalizado, sempre tive quem ouvisse meus dramas (e olha que eles não foram poucos), alguém pra rir, contar a última novidade, pedir conselho, para me dizer “chega!” ou “vai com tudo”, ou só para estar junto sem nada para fazer.

* * *

Fazia tempo que não nos víamos. (O último encontro havia sido no altar de uma igreja, há seis meses, no casamento da Flávia — que estava mais linda do que nunca, ao lado de um cara de muita sorte). Até que, por coincidência, as duplas – Flávia e Jussara; Wandel e Max – se encontraram novamente num café do subsolo de um shopping. Tudo foi muito rápido, é verdade. Entretanto, os velhos amigos de faculdade não perdem a intimidade. Não fazem cerimônias; são diretos, francos, como se retomassem uma conversa interrompida ontem na última aula. Riem de coisas tão absurdamente sem sentido, que é melhor não tentar explicar aos de fora as piadas íntimas.


De repente, estávamos os quatro dentro do carro. Indo embora, voltando para a nossa rotina de profissionais responsáveis, aos novos amigos e prometendo nos encontrar com mais freqüência. (Dessa vez, prometi ir ao Pico das Agulhas Negras, ir a Valença visitar um outro amigo, combinar alguma coisa na casa da Flávia, em Resende, e fazer um churrasco no fim do ano na minha, em Itatiaia, para os chegados). No fundo, infelizmente, sabemos que muitas promessas – a maioria ou todas - não serão cumpridas, como outras já não foram. Com o passar do tempo, incompatibilidade de agenda e distância geográfica, a vida se encarrega de levar cada um para um lado. E acabamos designando ao acaso o papel de arranjador de reencontros de velhos amigos. Uma pena e muitas saudades.