quinta-feira, 28 de outubro de 2004

OLHAR CRÔNICO

Ah, como eu queria ser cronista... Ver a leveza e a beleza da vida e ainda contar aos outros como se fosse numa conversa fiada. Daquelas que se tem com o vizinho, com o amigo de longa data e com o pessoal do trabalho no bar de sempre. Simples, direta e intimista – quase como se fosse um cochicho. E conta-se causos, debate-se a política, comenta-se o filme em cartaz, recorre-se à memória e vai emendando um assunto no outro sem perder o fôlego. Fazendo sorrir e arrancado uma lágrima inesperada bem no meio do papo. Tudo muito corriqueiro e, por isso, fascinante.


A genialidade do cronista está em conseguir extrair lirismo de cenas aparentemente banais e transformá-las em textos arrebatadores. Eu, se fosse uma, escreveria sobre um velho par de sapatos que outro dia vi abandonado na rua. E também sobre o barulho da máquina de lavar que me acorda todas às quintas-feiras. E certamente não acharia que o dono daqueles sapatos fosse um desleixado. Nem a mulher, que se põe a lavar roupa às 6h da manhã bem debaixo da minha janela, uma inconveniente. Deve haver razões e um significado nesses fatos, que não posso ver. Sou míope e não enxergo além da ponta do meu nariz. Vejo, no máximo, o meu umbigo. E só. O resto é tudo embaçado.

Mas, além de falar sobre os sapatos e do barulho da máquina, eu queria ser cronista para escrever para a idosa que sente solidão - e seria, em palavras e idéias, uma boa companhia nas noites silenciosas. Para fazer o dono da cantina, sempre de cara amarrada, rir pelo menos uma vez ao dia e, assim, ser mais gentil com os clientes. E ainda para escrever uma crônica de amor que a jovem quisesse copiá-la e enviá-la ao namorado. E se ela tomasse para si a autoria do texto, não me importaria com esse inocente plágio. Seria até motivo de orgulho.


Se eu sentisse, pensasse e visse o mundo com as lentes de aumento dos cronistas, escreveria incansavelmente. Sobre os sapatos, a máquina barulhenta, para a idosa, o dono da cantina, a jovem e, sobretudo, para mim. Mas criaria artifícios e com “engenho e arte” construiria textos para não fadigar o leitor com tanta primeira pessoa do singular. As palavras não se mostrariam tão arredias, tampouco me escapariam idéias. O olhar crônico me mostraria a vida quotidianamente bela. E não me
queixaria da fugaz inspiração, porque o cronista, acredito, deve ter sempre a alma inspirada. Pronta fazer uma crônica e dar-lhe um final sublime. Transformando prosa em poesia, num processo inexplicável de alquimia.


quarta-feira, 20 de outubro de 2004

O IRMÃO DO MEIO


Quem tem ou é irmão do meio sabe que essa figura na família tem suas peculiaridades. É um tipo diferente desde pequeno. Tem suas esquisitices e, em geral, não se parece com ninguém da casa. Lembro-me até de um comercial do Açúcar União dedicado a ele (Senão me engano, um garoto comia todos os bolinhos de chuva e não deixava para os irmãos). Justa homenagem. Afinal, não é o aguardado primogênito, nem o paparicado caçula. É apenas o filho do meio, o que veio entre um e outro – embora não signifique que seja menos amado.

Digo isso, porque eu tenho um clássico irmão do meio. Três anos mais novo que Rogério – o número 1 dos meus pais – e um ano e nove meses mais velho que eu. Cleber é o nome dele. O que nasceu loiro, o que é magrelo, o que chamava a atenção, o mais descolado, o mais indisciplinado, o mais anti-social, o do contra e o flamenguista da família de vascaínos.

Foi esse o garoto que passou a infância me pondo apelidos e brigando comigo. O que não apanhei dos meus pais, apanhei desse menino que antes dos dois anos de idade já usava óculos. E tome puxão de cabelo, chute e tapas. Confesso, que eu era bem irritante. Provocava, provocava, mas na hora da briga só chorava e gritava. Claro, o escândalo era tanto que vinha pai, mãe, avó, empregada, Rogério e quem mais estivesse por perto para defender a indefesa caçula da fúria do irmão do meio.

Nessa época, minhas amigas não gostavam dele porque vivia estragando as nossas brincadeiras. Isso, obviamente, mudou depois. Principalmente, quando aquele moleque tirou os óculos, se transformou num charmoso homem de 1,80m de altura, bem-arrumado e passou usar Escape, da Calvin Klein. Deixei de ser o motivo para elas freqüentarem minha casa e passei a ser a irmã caçula daquele "gostoso", como elas falam com uma incômoda entonação. Por ciúmes, nunca banquei a alcoviteira e jamais ajudei meu irmão com as meninas - fossem elas minhas amigas ou não.

Já ele, ao contrário de mim, era meu confidente nos namoricos e entregou minha primeira carta de amor para o garoto mais velho da rua. Depois me apresentou o irmão do amigo dele, inclusive, o levando para lanchar na nossa casa. Era um encontro. Isso seria muito natural, se eu não tivesse cinco anos de idade e acreditasse que salada-mista era apenas aquela sobremesa que minha mãe fazia com pêra, uva e maçã. Uma estripulia típica do menino que me fez acreditar que no colégio dele tinha um pé de feijão que levava ao céu. Aos três anos, a curiosa aqui, para conferir a história e também ir ao céu, fez birra para passar um dia na tal escola encantada. Acabei descobrindo que não tinha pé de feijão e, naquele dia, talvez a frustração maior tenha sido a dele, que deixou de ter para quem contar o que fantasiava em suas idas ao céu.

Apesar das brigas, crescemos assim. Um do lado do outro, inseparáveis. Havia até quem achasse que fossemos gêmeos. Silêncio demais era sinônimo que surgiria mais alguma idéia mirabolante. Como as fugas de casa e nossas empreitadas no mundo dos negócios, em que eu - não sei o porquê - era sempre sócia minoritária. Vendemos jabuticabas colhidas na árvore do fundo do quintal e refresco no portão. Com fins lucrativos, criamos galinhas e codornas. Por estimação, peixes, gatos e cachorros.

E quando nos demos conta, tínhamos crescido muito. As roupas ficaram curtas e os brinquedos não tinham mais graça. Não sei se foram os anos de natação, mas estava todo mundo grande. Grande demais para dividir negócios, guardar segredos e fazer as pazes depois de uma briga tola. O silêncio deixou de fertilizar a imaginação para alimentar orgulho de adultos cheios de si. As histórias da infância cederam lugar a diálogos monossilábicos e o máximo que um sabia do outro era se estava "tudo bem".

Não, não estava tudo bem. Nos últimos tempos, o irmão do meio fez falta. Não tem graça ser caçula de um irmão só. Até que um sábado de tarde nublada - sem pai, mãe e irmão mais velho em casa, todos viajando – ele voltou a me contar história. Não a do pé do feijão, mas impressões e causos da vida de um homem "gostoso" e inteligente de 25 anos. Tomando cerveja, ele quis saber de mim e contei um pouco. Não gosto de falar de mim. Então, concluímos que andamos pensando e fazendo coisas muito parecidas. Eu impliquei com o cigarro dele. Ele me chamou de chata. E voltou a fazer o silêncio das idéias mirabolantes. Vamos trocar as fechaduras da casa e morar sozinhos – o restante da família que arranje outro lugar. Ao contrário do que se pensa, a gente se dá muito bem, obrigada.

quarta-feira, 13 de outubro de 2004

ELE ME DEU BOM DIA


Depois de dar bom dia para familiares, amigos, políticos, atletas, policiais, marginais e babás ensandecidas, ele, finalmente, me deu bom dia. Mal pude acreditar. Ao virar a página do jornal para minha leitura cotidiana lá estava: “Bom dia, jornalista Jussara Soares”. Seguido de uma série de saudações tão comuns à coluna Todos os Dias do “amigo” e jornalista Silva Filho, no Jornal A Voz da Cidade.


Entre lisonjeada e envergonhada – afinal, jornalista não é notícia nem em crônica – li e reli várias vezes à procura de expressões típicas de seu texto e que jamais passaram despercebidas por mim. Claro que não seria “flor de chocolate”, com a qual definiu Daiane dos Santos. Também não seria “babá safada”, já que não sou babá, muito menos safada e menos ainda, espanco criancinhas. Lá estava, sou uma “leitora assídua” e tenho “fibra de mulher’. Melhor assim, não acham?


Para minha felicidade, no texto em que me deu bom dia, Silva Filho manteve-se fiel ao seu estilo peculiar - único na região. Definiu-se como um “lobo solitário” e buscou nas minhas origens inspiração para mais uma peculiaridade: “Bendita seja, pois a sua terra, Itatiaia, de onde veio para mostrar o seu talento jornalístico para todos”. Tomara que além de um inspirado jornalista, Silva Filho seja também profeta!


O que sei é que nem ele sabe bem o que é, como, humildemente, já revelou em uma coluna autobiográfica. Nela, Silva Filho apresentava um sério questionamento existencial. Não sabia se era “um jornalista, um cronista ou um farsante”. O engraçado é que eu também vivo esse drama. Às vezes me sinto uma revolucionária – isso era quase um segredo até que ele revelou na sua coluna –; em outras, uma fã de um cronista atípico, e noutras, uma repórter para assuntos aleatórios. Sei não, Silva Filho, sei não!


Para quem ainda desconhece a origem dessa história, leio Silva Filho desde a sua primeira crônica, há cerca de um ano. O que me chamou a atenção foi o visual do colunista e novo editor do jornal – estampado em uma foto 3 x 4 no alto da página. Meio de perfil, com terno e gravata, e escondido atrás de óculos típicos de detetives de filmes policiais americanos. Fui ler o que aquela figura tinha a dizer. Li uma vez, duas e isso se tornou um hábito de “todos os dias”. Afinal, qual outro cronista brasileiro daria bom dia para o patrão, mau dia para George W. Bush, teorizaria que um casal de baratas será Adão e Eva do mundo que surgiria após a explosão nuclear e preveria a manchete que anunciará a volta do Messias. Algo do tipo: “Depois de mais de 2 mil anos, Jesus Cristo está de volta!”. Só o Silva Filho, aquele que me deu bom dia.

É necessário explicar que virei assunto de crônica da página 2 de A Voz da Cidade não por conta de um novo emprego, como já andam especulando. Mas por que além de “leitora assídua”, sou fã declarada de Silva Filho e divulgadora de seus textos. E é bom que Silva Filho saiba, que não são apenas três ou quatro os leitores de sua coluna como ele, modestamente, sugere. No aQui, minhas companheiras de redação Edma Nogueira, Martha Carolina Machado, Chrystine Mello, Elizabeth Vianna e Letícia Lopes passaram a lê-lo e, freqüentemente, até antes de mim. A Juliana Braga, por ser do contra, não lê muito não, mas eu leio em voz alta para ela ouvir. Às vezes, até dramatizo. Ah, e em conversa com outros colegas de profissão, sempre que tenho a oportunidade indico a leitura. E, a partir disso, sei que outros repórteres e assessores de imprensa já o leram. Até mesmo, cheguei a pensar em lançar no Orkut, a comunidade “Eu leio Silva Filho”. E olha que muitos se disseram dispostos em aderir.


Tudo isso eu fiz despretensiosamente, sem esperar um bom dia em troca. Mas aí, a Chrystine e a MC resolveram me “homenagear” e pediram ao fotógrafo de A Voz, Valdinei Ferreira, que sugerisse a Silva Filho, que me desse bom dia. Ele não só me deu bom dia, como disse que beijará minha mão, que gosta de mim mesmo sem me conhecer, que já se tornou meu fã e terminou com um beijo no coração. Coisas de Silva Filho...


A coluna foi publicada no sábado, dia 9, e quando eu já pensava que meus minutos como assunto de crônica - e de fama - tinham acabado, eis que, novamente, abro o jornal hoje, quarta, dia 13, para a leitura de Todos os Dias, e me deparo com o “Bom dia, jornalista Jussara Soares”. Com a diferença, que, embaixo encontrava-se a ressalva em negrito: “Republicado a pedidos”. Agora, resta a pergunta: de quem?


Por tudo isso — não com tanta graça e estilo, acho que me faltam, principalmente, os óculos — eu resolvi retribuir aqui a gentileza do colunista de A Voz da Cidade.

— Bom dia para você também jornalista Silva Filho. Duas vezes.

quarta-feira, 6 de outubro de 2004

CERTEZAS


(Em pensar que um dia me disseram que tinha muitas certezas para minha idade.)


Pois eu vou dizer que as certezas acabaram. Dissiparam-se as convicções. Deixadas para trás num tempo longínquo, vejo-as tolas, ingênuas e infundadas. Mas eu ainda me questiono, por onde as terei espalhado?


Naquela conversa com desconhecidos, no livro de Orwell, na estupidez alheia, na mesquinhez humana, na minha arrogância, no cheque-especial, na mesa de bar, no porre de vinho, na viagem solitária, nas noites insones e nos dias mal acordados. Sim, algumas certezas, provavelmente, foram consumidas aí. Outras, porém, as perdi e nem sei onde, como e por quê.

Restaram apenas incertezas e um ceticismo atormentador que me fazem duvidar de tudo e quase todos. Deixei de acreditar em política, em Marx, revoluções, em dietas milagrosas, em altruísmo, amor à primeira vista, recohecimento e imprensa livre. Já não tenho certeza que no final tudo dá certo, que há alguém olhando por mim, que sorrir é o melhor remédio, que a justiça tarda mas não falha, e que eu não poderia ser outra coisa senão jornalista.


Eu não sei o que é certo e errado. Bom e ruim. Bonito e feio. Caro e barato. Saboroso e insípido. Carinho e indiferença. Real e virtual. Não estou mais convicta das minhas habilidades, dos meus gostos, das minhas vontades, das minhas paixões e dos meus sonhos. Se esse mundo existe, não tenho certeza. Tampouco, se há outro melhor e eterno.


Não tenho certeza de que isso é vida. Nem do que é a morte. E, embora não saiba o que quero, minha única certeza inabalável é que eu quero tudo ao mesmo tempo. De preferência, agora.


E você, tem certeza de quê?