sábado, 20 de novembro de 2004

PERDIÇÃO


Há coisas que foram criadas para serem perdidas. Por exemplo, os guarda-chuvas. E não adianta comprar um bem colorido, chamativo, diferente que, no primeiro sinal que o tempo vai abrir, ele será esquecido junto com a chuva. Será tarde demais e estará perdido. Pra sempre. Assim, como as canetas Bic. Perdeu, perdeu. Tais como os óculos de sol, outros que têm vocação para perder-se. Tenham eles custado R$ 600,00 ou R$ 10,00 no camelô. Tudo vai pro beleléu. Seja lá onde for isso.

De todo modo, deve ser para o reino encantado das coisas perdidas que vão os cordões umbilicais, as virgindades, os tesões, os pudores. Teria ido para lá também a menina que tão nova se perdeu? Talvez apenas o hímen. Isso se ele não for complacente. E o ponto G? Ele está perdido entre uma extremidade e outra do corpo, não pode ter ido para o beleléu. Ah, não mesmo!

Alguém nascido na primeira metade do século passado critica que o mundo está perdido. No Rio, ladrão anuncia o assalto e diz: “Perdeu”. A mãe lamenta que perdeu o filho para as drogas. O viúvo chora porque perdeu a mulher ainda jovem. Enquanto, na Globo, o Galvão Bueno, irritantemente, repete que o Brasil perdeu. O Carlos Lessa perdeu o emprego. O Joaquim da padaria também, mas ninguém perdeu tempo falando sobre isso. O Lula já tinha perdido um dedo, agora dá impressão que está perdendo o cérebro. Os brasileiros estão perdidos.

Eu mesma andei perdendo muito por aí. Ontem, por exemplo, perdi o troco do ingresso do cinema. E como sempre, perdi também a hora e o ônibus. Qualquer dia perco o trabalho. Antes, havia perdido o pé esquerdo das minhas Havaianas brancas, a data da prova, o crachá, minha gata Paloma, o número do telefone de um tal Eduardo e as chaves de casa. Fiquei perdida na noite e dei um perdido depois.

Às vezes, eu perco a noção do perigo, o senso do ridículo, o medo e a vergonha. Para não perder o amigo, eu perco a piada. Mas, freqüentemente, perco a oportunidade de ficar calada. A cabeça, a paciência, as estribeiras, eu perco sempre. E acabo perdendo a razão. Que perde-se como o fio da meada, o raciocínio e a linha.

Já perdi a conta de quantas vezes me disseram que havia perdido o juízo. E de quantos trocadilhos fizeram com isso quando há três meses perdi o siso. O sono eu perco toda noite. A fome, não muito. A voz, perdi depois de um show. A fala, num susto. Também perdi muita gente de vista.

É então que me lembro do dia que perdi o fôlego e todos os sentidos. Naquele dia que tudo se perdeu num silêncio eloqüente. Quando descobri que a vida é mesmo uma perdição. E, agora, vou querer me achar pra quê?

sexta-feira, 12 de novembro de 2004

AH, CLARICE...

"É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo".
Clarice Lispector,
A Paixão Segundo GH

terça-feira, 9 de novembro de 2004

A FELICIDADE DA MOÇA

Para a querida amiga Fernanda Albuquerque
Perguntaram à moça onde estava a felicidade dela. E a ela, confusa, não soube responder com exatidão. Porque a felicidade da moça não tem endereço fixo, pode não ser concreta, nem sempre é explícita e esconde-se em partículas difusas na alma e na vida. Mas a felicidade da moça está ali. À espreita, pronta para fazê-la sorrir, quando, distraída, não percebe sua onipresença.

A felicidade da moça não costuma bater à porta. Prefere entrar, inesperadamente, pela fresta da janela. Roubando-lhe a melancolia e a colocando em estado de êxtase. Como a brisa fresca que alivia o corpo nos dias quentes. A chuva que tira cheiro da terra. A música ouvida de longe que lhe devolve pessoas e sensações de um outro tempo. O telefonema que traz a voz grave e agradável de hoje.

Houve vezes em que a felicidade da moça chegava pelo correio e vinha de uma cidade do interior paulista. Essa felicidade não durou muito tempo, mas a moça arranjou uma outra também de sotaque paulista, mas que morava por perto. E teve também a de Minas, a de férias, a da escola, a da festa, a do ônibus... Felicidade em que o ‘pra sempre’ não passou de meses, dias, horas ou minutos. Ainda assim, felicidade de arrepiar.

E a moça não precisa de muito para ser feliz. Acordar tarde a deixa feliz. Dormir, mais ainda. Viajar também a faz muito feliz. De carro ou não. A felicidade dela também está em ir para a casa dos pais e também em voltar para sua. E a moça consegue encontrá-la numa bacia de pipoca e pensa que felicidade deve ser a da vida do adolescente que canta Twist and Shout no filme. A moça morre de rir.

Chega a ser boba a felicidade da moça. Que chora de felicidade quando o time do coração ganha. É tomada por um infinito contentamento quando tira folga em plena segunda-feira e sabe que todos os outros estão trabalhando. Fica feliz quando sonha que pode voar e, mais ainda, quando ganha asas. A moça ri à toa quando sai com os amigos.
Um dia a felicidade da moça foi quando uma menina que a olhava com rugas na testa abriu-lhe um sorriso metálico. Quando descobriu dentro de um ônibus um primo improvável. E ela – a felicidade - foi maior quando a moça conseguiu juntar a menina de aparelho nos dentes ao parente do ônibus. Ela – a moça – tinha certeza que a felicidade dela seria também a deles.

A felicidade da moça não está à venda, todavia ela já a encontrou no segundo corredor à esquerda no supermercado. Assim como a encontrou em bilhetes e nos livros com dedicatória. A moça mandou felicidade embrulhada pra presente. E recebeu de volta felicidade em dobro. A felicidade da moça, em geral, não é palpável, mas costuma chegar com um abraço aconchegante. “Isso sim é felicidade”, pensa a moça.

E se a moça não parece feliz, não leve isso tão a sério. Ela pode estar fazendo tipo. Porque a felicidade da moça está por aí. Às vezes, ela só não quer sentir.

quinta-feira, 4 de novembro de 2004

HÁ DIAS


Há dias em que não quero sair da cama. Acordar pra quê? Se eu não vejo tanta vida lá fora. Se amanheço com os dois pés esquerdos. Se não tem roupa passada. Se o chuveiro queimou. Se esqueci de comprar o cereal e o iogurte. E, agora, o que vou comer no café da manhã?

É melhor continuar aqui nesse quarto de parede branca — ou seria gelo? Pelo menos me poupo de ter que estender a cama. De pentear o cabelo e de me olhar no espelho. Há dias em que sinto muita preguiça. Mas os dentes vou escovar – só não prometo passar o fio dental.

E essa televisão? Ligou às 7h45 em ponto. Igual a todos os dias. Será que nenhum eletrodoméstico dá mais defeito? Eu reivindico meu direito de perder a hora e de ter uma justificativa razoável para o editor do jornal. Se eu falar que deixei o cachorro da vizinha fugir de novo, ele não acreditará.

A verdade é que há dias em que não quero trabalhar. Porque trabalhar significa me levantar da cama, sair do quarto, descer as escadas, abrir a porta e ganhar a rua de esquinas previsíveis e rostos conhecidos, quando eu quero me perder no ócio. E no meu vazio.

Não, esses dias não são “aqueles dias”. Tampouco os dias que vêm antes destes. Mas neles eu também como chocolate e costumo chorar. E não quero que ninguém me veja, nem me encontre.

É por isso, que nesses dias, eu amaldiçôo a tecnologia. Celular pra quê? Internet pra quê? Eu quero sumir e deixar de viver. Só por esses dias. Quero ficar alienada e não saber de nada. Não vou ler o jornal, nem ver o noticiário, nem ouvir rádio AM. Pensando bem, nem FM, nem Beatles, nem o cd novo que comprei.

Há dias em que o silêncio é meu único desejo. E eu o almejo sem companhia. Não tenho nada a dizer. Nem paciência para escutar a mesma voz. A respiração, sequer. Posso te mandar embora?