quinta-feira, 30 de dezembro de 2004

DJALMA

Deveria ser proibido morrer jovem. Tenho a impressão de ter ouvido alguém me dizer que o ciclo da vida era que “a gente nasce, cresce, se reproduz, fica velho e morre”. Ouviu bem? Se reproduz, fica velho e, só depois, bem depois, morre. Não foi assim com meu grande amigo Djalma. Desculpe, mas enquanto a dor vai abrindo caminho para a saudade, não há palavras. Apenas lágrimas.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2004

UM PEDIDO

Ao amigo Djalma

Eu que não entendo nada. Que não sei nada de nada. Que não sei pedir coisa alguma. Que não sei perder. Que choro. Que sofro. Que lamento. Que tenho medo. Que não quero saudade. Que, por instinto, amo demais E que, por fraqueza, sou de pouca fé. Por você, faço até promessa. Troco todos os meus pedidos e desejos para 2005 por um milagre.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2004

CÁ ENTRE NÓS


São esses fins de tarde que me afligem. Essa indefinição entre ainda dia e quase noite traz em si uma tristeza mórbida. Uma angústia meio avermelhada, meio azulada. Cor de céu melancólico? Não. Vulnerabilidade minha. E foi na fragilidade de um entre dia e noite de primavera, num cá entre nós, que me vi seduzida por confissões e revelei o indizível a um, em tese, desconhecido. Alguém que até então se contentara com migalhas de verdades e que, a partir disso, se esmerava em desvendar o enigma que eu me apresentava em cada conversa inútil que tivemos. Estava estabelecido um jogo de mistério, pois eu permitia-me no máximo saber frivolidades daquele que escolhi para a condição de desconhecido. Nada de intimidade, esse era o propósito.

Mas tudo sucumbiu diante daquele anoitecer em que me deixei decifrar, quando a ordem no jogo – no meu jogo – era devorar qualquer pretenso entendimento sobre mim. A esfinge que eu supunha ser. Pura tolice. Exposta num fim de tarde, num lugar que pouco importa, minha evidente debilidade tornou-me de uma irritante clareza, nítida demais. Repugnante até, para o desconhecido que se entretia com o fato de me ter e não me ver além. Era carne, osso e só - como eu queria ser vista.

Naquele entre dia e noite, à medida que o céu se manchava de escuro, minha alma foi se transparecendo. Revelei o que pra mim é tormento, aflição e desejo. Revolta, paixão e dúvida. A vida que não é minha. E a outra que eu queria ter. Disse até o que eu mesma custo a verbalizar para mim com medo da força das palavras. Num ímpeto de loucura, eu quase gritei minhas obviedades para quem até então tinha de mim apenas uma imagem pálida, mãos que falam por si, as ondulações da voz e um amontoado de charadas e informações desconexas que eu deixava escapar.

De repente era noite e comecei a me recuperar do mal que se abatera sobre mim enquanto a noite era ainda uma promessa. Mas já era tarde. Meu espírito inquieto e confuso estava nu e eu tinha que voltar para casa. Agora, sem o encanto do indecifrável, mas com o silêncio das minhas aliterações, frases feitas e rimas pobres.