quinta-feira, 17 de março de 2005

A LOUCURA DOS INQUIETOS

Parece uma comichão
Talvez seja um faniquito
Um leve desespero
Uma certa insatisfação
De repente, um impulso...
— Meu Deus, o balde!
E lá foi ele outra vez junto com o pau da barraca.

PARTES DE MIM

Há em mim um soneto inacabado. Não houve versos para o último terceto. Ao poeta, faltaram-lhe as palavras. Sobraram-lhe sentimentos.

Ao pintor não faltou a inspiração. Mas - que ironia! – não houve tinta suficiente para a última pincelada. A tela abstrata ficou sem o retoque final. E eu estava ali.

Da argila que não ganhou forma nas mãos sensíveis do escultor, parte está em mim. Como as notas que não deram harmonia à peça musical do compositor. E o assunto que, lá pelo meio do texto, escapou ao cronista.

A última cena do filme, o último capítulo do romance, o último ato do teatro, o último chiste da comédia, o último traço do desenhista, a última dose. Confesso, também carrego todos comigo.

Partes de uma incompleta vida inteira.

terça-feira, 8 de março de 2005

EU PODERIA SER...

Sabe a moça que ontem te vendeu um sonho na padaria? Eu poderia ser ela vestida num jaleco amarelo,com um boné e um rabo de cavalo. Experiência no ramo não me falta. Aprendi com meu pai a vender pão, arroz e feijão. E a dizer para os clientes: muito obrigada e volte sempre. Tenho certeza que muitos voltariam, porque eu até sei ser simpática.

Minha simpatia também me faria uma ótima recepcionista. Mas a idéia de ficar em pé o dia inteiro não me agrada. Entretanto, se preciso fosse, eu até seria. Desde que pudesse usar sapatos baixos. Operadora de telemarketing, eu também poderia ser. Sei ser chata, inconveniente e imito sotaque de paulista como ninguém.

Eu poderia ser o taxista que outro dia te levou bêbado para casa, que ouviu sua conversa ao celular e que trabalha na madrugada. Eu gosto da noite e suas histórias. Também poderia ser o motorista de ônibus, que enquanto dirige está sempre pensando em outra coisa. Já procurei me informar e sei que tem turno de duas horas da tarde à meia-noite e que as empresas estão contratando cada vez mais mulheres. Eu realmente poderia ser uma profissional do volante. Teria nascido para isso, caso soubesse dirigir.

Pela minha altura, eu poderia ser jogadora de basquete, vôlei e modelo. Pela minha falta de jeito com esportes coletivos e o pelo DNA que não é de Gisele Bünchen, é melhor tentar a vida de outro modo.

Para fazer minha família feliz, eu poderia ser qualquer coisa. Médica? Não, eu tenho medo de sangue. Farmacêutica? Não, eu não gosto de remédio. Comissária de bordo? Não, sou estabanada demais. Funcionária pública? Não, eu não gosto de estudar, odeio prova de múltipla escolha e a palavra estabilidade me dá pânico. Qualquer profissão que dê dinheiro? Não, eu nasci para viver com pouco.

Talvez eu devesse ter seguido um conselho da minha avó Mariana. Certa vez, ela me sugeriu que arranjasse emprego em uma agência dos Correios. Por quê? Ela teria certeza que estaria lá o dia inteiro vendendo selos e enviando sedex. Sem sair do lugar, sem lhe dar preocupação e com a garantia de que às cinco da tarde estaria voltando para casa. É um caso a se pensar...

Quando criança, eu quis ser presidente do Brasil, prefeita de Itatiaia, cabeleireira, desenhista, fotógrafa, professora, astronauta, arqueóloga, paquita, arquiteta, decoradora, bibliotecária, datilógrafa, secretária bilíngüe, tradutora, locutora de FM, policial, detetive particular, diplomata, babá, fazendeira, pescadora, pianista, telefonista, meteorologista, trapezista, escritora de novela e peão de rodeio.

Eu poderia inventar profissões. Por exemplo, pegadora de mercadorias que ficam no alto das prateleiras dos supermercados, puxadora de cordinha de ônibus e oferecer mais uma série de serviços para baixinhos. Poderia ser uma profissional especializada em confortar amigos e parentes em enterros, chutadora de balde e criadora de polêmicas gramaticais. Outro dia, na formatura de uns amigos, descobri que posso oferecer serviços exclusivos de gritos. Formatura, casamento, aniversário, campeonato de futebol de botão... Seja o que for, precisando de um incentivo, estamos aí.

Não raro, eu penso em virar hippie e viajar pelo mundo vendendo artesanato. Mas eu gosto de tomar banho e de depilação. Então, é melhor deixar pra lá. Queria ter uma ong, um asilo e uma livraria. Cronista e poetisa, eu também queria ser, mas isso você já sabe. Talvez não saiba, que eu queria ser ativista do Greenpeace, voluntária no CVV, trabalhar na ONU, fundar um partido de esquerda, voltar a fazer teatro e virar contadora de história.

Jornalista, eu também poderia ser. Peraí, isso eu sou mesmo, ou não? Às vezes, eu custo a acreditar nisso. Coisa mais esquisita. E o curioso é que descobri que os outros também duvidam disso. É que eu não apareço na televisão. “Você é repórter? Então, qual é o canal que você aparece?”. Veja só, o drama de quem queria apenas escrever em jornal.

Mas o meu maior dilema, por incrível que pareça, não está no jornalismo. Há um outro maior. Um segredo que guardo desde os tempos do segundo grau, no Colégio Pedro Braile, em Resende. Sinceramente, o que eu mais queria nessa vida era ter uma profissão em que me bastasse a única informação que ficou das aulas de química com o professor Argemiro: “O carbono é tetravalente”. Só que até hoje eu me pergunto, e daí?