sexta-feira, 29 de julho de 2005

A MORTE DA BEZERRA

E tanto que tenho pensado que talvez esse tenha se tornado meu vício. O pensamento não me dá tréguas. Penso insistentemente em mim, em você, naquele dia e no que há de vir. Penso no que foi e no que poderia ter sido. No passado, no presente e no futuro, eu sempre penso. Penso na vida, na morte e nos seus mistérios. Penso em malas e mensalões, que o Brasil é quase a Serra Leoa em distribuição de renda e onde é que vamos parar. E perco tempo pensando se eu vou ter blusa para combinar com o sapato novo. Se não tiver, penso em fazer compras antes que eu pense na fatura do cartão de crédito. Vivo pensando nisso, naquilo e sempre em outra coisa.

Parar de pensar e começar a viver foi o que me recomendaram. Desde então é o que tento fazer. Assim só por experiência. Apenas para ver como é, sabe? Então, agora, de repente, me lembro de uma prima que durante uma aula de filosofia afirmou que tinha conseguido ficar um minuto sem pensar. "Vocês não conseguiram? É tão bom...", comentava ela sobre seu prodígio com seus amigos, pobres seres pensantes.

Foi quando se valendo da vivência única e transcendental da minha prima, a professora, cheia de soberba, condenou: "É IM-POS-SÍ-VEL!", disse como se acabasse de revelar um dos mistérios mais perseguidos pela humanidade. Senão me engano, a professora completou com "Penso, logo existo". Como rimos disso... E ainda hoje, eu, meu irmão e os nossos amigos daquela época nos divertimos com a cena. Escrevendo assim não tem graça. Seria preciso imitar a entonação e a empáfia da professora posando de filósofa e a adolescente tentando explicar que, na verdade, ela estava tentando não pensar em nada.

É o que eu tentava fazer neste exato momento. Não pensar em nada para pensar que não pensei. Melhor deixar pra lá. Eu só estava mesmo pensando na morte da bezerra.