quinta-feira, 11 de agosto de 2005

ESSA GENTE QUE PASSA...

Lá vem o homem grisalho de terno, gravata e maleta na mão. Pra que lugar esses sapatos bem lustrados vão levá-lo? Antes que pudesse fazer minhas suposições, o homem vira a esquina à direita levados por seus sapatos que, provavelmente, teriam sido engraxados há poucos instantes por um desses pequenos engraxates.

É da mesma esquina onde desapareceu a elegância dos sapatos brilhosos que surge um outro homem. Este de bermuda, bicicleta, chinelos de dedo, carregando um pacote e um jornal. Quero olhar seu rosto, mas me atenho ao fato de que naquele dia ele, cidadão comum, saiu de casa em busca apenas de pão quente e notícia fresca. Ou seria pão fresco e notícia quente? E acabo me sentindo mal porque sei que aquelas notícias são todas de ontem. Torço para que pelo menos o pão não seja amanhecido.

Acompanho o pacote de pão e o jornal até cruzar com as mãos dadas de um menino e sua mãe. Ele usa o uniforme da escola. Ela o de uma empresa qualquer. O menino, que não quer ir estudar, é puxado pela mãe que se arrasta estampando no rosto um abatimento qualquer. A mãe do menino parece não estar bem. E imagino que mais adiante ela vai ralhar com ele. Não demora muito e o menino chora.

A jovem que passa correndo por eles de tênis e moletom não percebe a cena. Ela me parece tão feliz, tão bem disposta ouvindo seu walkman que quase tenho vontade de fazer o mesmo: correr com essa felicidade e disposição. Olho para meus pés e não estou de tênis. Esses sapatos, além de desbotados, podem me dar calos. Que música ela estaria ouvindo?

A moça de moletom passa por um prédio em construção e pelo menos três trabalhadores da obra se viram para acompanhar a corrida. Aliás, não a corrida, mas o movimento dos quadris da jovem esportista. Eles comentam alguma coisa. A moça deve ter pensado em xingá-los, não o faz, no entanto. No sentido contrário ao da jovem, vem uma mulher usando um tailleur justo e salto alto. Os homens que viram a massa de cimento aproveitam o movimento da cabeça de volta ao trabalho e conferem aquele andar imponente. Não fazem um comentário sequer. Decerto, eles preferiram a corrida de tênis ao andar sobre salto agulha.


Nesse vai-e-vem, surge na manhã fria um casal de idosos. Os dois, bem agasalhados, usam bengalas. A senhora de cabelos curtos e alvos anda com mais habilidade. O senhor, careca, me parece mais frágil e fica uns passos para trás. A quantas festas os dois, que já devem ter comemorado bodas de ouro, não foram andando no mesmo passo? E, eu que não sou boa de cálculos, fico fazendo contas. Devem ter três filhos e cada filho deu a eles dois netos. Dois netos devem estar casados e o primeiro bisneto acabou de nascer. Cinco festas de casamento, dez batizados e pelo menos umas seis formaturas. Mas aniversários, como descobrir com que freqüência se faz festa naquela família? De repente, a idosa pára. Espera o marido para acertar o passo. Juntos, entram numa clínica de ressonância magnética. E minhas contas perderam o sentido: eles ainda andam no mesmo passo.

E enquanto observo, todos continuam indo em frente. O homem e o sapato brilhoso; o outro homem, o pão e o jornal; o menino de mãos dadas com a mãe; a jovem que corre feliz de tênis; a mulher que se equilibra sobre o salto; os trabalhadores da construção civil, e, por fim, os idosos. E percebo o quanto essa gente que passa anônima por mim, todos os dias, a caminho não sei de onde, levando suas vidas para longe daqui, pode ser fascinante. Enquanto não volto andar ou a correr, não escolho por onde ir, é toda essa gente que vou observar, como se um pouco de mim pudesse seguir junto. Com essa gente que passa, que passa, que passa...

sexta-feira, 5 de agosto de 2005

19h09min

Muito antes de o poeta cantar que o tempo não pára já deveria ser essa a maior angústia humana. É a minha hoje. Fui conferir a hora e me peguei imaginando aonde é que ele vai com tanta pressa? De ano em ano, dias após dias, no ritmo cadente das voltas inteiras que os ponteiros dão nos relógios. Sejam eles de camelô ou Rolex: são todos, por natureza, senhores absolutos do tempo. Esse que segue sempre indo, implacável, no rumo certo da incerteza. Correndo afoito, fugindo aflito para fazer passado do presente, na ânsia desesperada de alcançar o futuro.

Futuro, mas que futuro? A vida eterna, em 2100, o ano que vem, o mês seguinte, amanhã, quando o sol nascer, daqui a uma hora, no próximo minuto. Só se vive o presente, lembra? Este sim um tempo que é meu. Um tempo que ainda é seu. Este é o que realmente importa: o tempo que se vive e não o que há de vir. Porque já passou um minuto e o futuro não chegou. O futuro não chega nunca.
Eram 19h08min quando olhei no relógio.