segunda-feira, 22 de maio de 2006

PRESTA ATENÇÃO

- Ah, eu não sei o que quero...
- Pára! Você quer o que todo mundo quer. Só falta admitir isso
- ...

terça-feira, 16 de maio de 2006

NADA SEI

Não me venha com perguntas complexas. Hoje não, por favor. Porque, mais uma vez, fui tomada por essa aflição boba de não se saber o que quer quando se quer muita coisa. E meu medo confesso é que de tanto querer tudo, acabe não querendo nada. Nunca.

Porque não sei se vou embora ou se fico por aqui. Pra sempre ou mais um pouco. Se vou de ônibus ou à pé pra casa no fim do expediente. Se lavo meu cabelo com xampu de maracujá - com sal - ou de queratina - sem sal. Açúcar ou adoçante? Os dois, quem sabe.

Talvez eu deixe a vida me levar do jeito que der. Talvez eu queira levar a vida do meu jeito. De repente, eu tome um sorvete de casquinha de baunilha, mas pode ser que eu prefira um chocolate quente. Pode ser que você me encontre logo mais na rua rodeada de gente. Pode ser que nem eu me encontre sozinha no meu quarto. Lendo Álvaro de Campos ou Ana Cristina César? Não sei.

Pode ser que eu ria. Pode ser que eu chore. Pode ser que te ligue. Pode ser que desligue meu celular. Não sei se me perco ou se me acho. De vez. É que estou em dúvida se salto de pára-quedas ou se não tiro meus pés desse chão de terra batida - mesmo que me sinta eternamente em queda livre.

Em tempo, tenho uma amiga que vive me repetindo que 'a indecisão é quando você sabe o que quer, mas acha melhor querer outra coisa'. Pode fazer sentido. Ou não.

quarta-feira, 10 de maio de 2006

MEU VÔMITO, TEU ALIMENTO*

Prepara-te, pois hei de te servir um banquete. Especialíssimo. Ajeita-te à mesa que já trago o teu alimento. Antes, porém, sinta o cheiro de azedo que toma o ambiente. Ele provocará tua fome, enquanto minha ânsia revira no estômago a tua comida. Não te preocupe, ela sairá ao ponto: nem fria, nem quente. Perfeita, morna e em jato, para teu deleite completo.

Se já te contentas com minhas migalhas, hás agora de te fartar como nunca fizera. E apesar da tua fome, não engolirás inteiro como um glutão desesperado, um cão faminto ou urubu que devora a carniça. Não deixarei. Porque teu apetite é do meu vômito - e ele é melhor que isso. Deve ser saboreado. Vomitar palavras não é, como disseste, o que faço? Pois então, hoje ele é teu manjar.

Controle tua avidez por um momento. Tua fome é resultado da tua incapacidade de sentir, pensar, regurgitar o que não te cai bem, o que não te é palatável. Porque aceitas tudo como um grande estômago de avestruz. A vida te desce a seco goela abaixo e nem assim és capaz de esboçar uma reação.

No máximo, o que fazes é arrotar frases feitas e idéias prontas. Porque preferes te entupir de digestivos a ter que encarar o que teu corpo pode expelir sem pudor para aliviar tua alma sempre empanturrada. Não queres sentir a dor de expulsar o que te faz mal.

Se teu corpo já não rejeita nada, experimente, ao menos uma vez, esticar a língua para fora e enfiar o dedo na garganta. Provoca-te como quem tem bulimia. Feche os olhos e tente. E não desistas ao primeiro sinal de náusea. Vá até o fim. Vomite o que não queres, mas evite ser um tolo ruminante. Não vás mastigar e engolir novamente o vômito que vem a tua boca. Porque é preciso te livrar das bobagens, absurdos e imposições que comes com farinha.

Tua comida está saindo. Pegue, elegantemente, a colher de sopa, coloque o guardanapo no colo, que o teu alimento já vem. Pronto. Estou aliviada e teu deleite está prestes a começar. Saboreie cada partícula com gosto do que penso. Sinta, aos poucos, a acidez do meu vômito. Deixe tuas papilas gustativas perceberem-no ora doce, ora amargo, ora azedo até escorrer pelo teu esôfago.

Isso. Agora, olhe bem esse líquido pastoso cheio de pedaços coloridos, de todos os tamanhos e formas, essa miscelânea visceral. Reconhece algo? É mesmo tudo o que eu não quis, mas é também o que te sustenta. Meu vômito, teu alimento.
Ah, também tem suco biliar para acompanhar, queres?

*Crônica republicada aqui no Páginas Rasgadas em homenagem ao Mimeographo, que está comemorando um ano agora em maio. "Meu vômito, teu alimento" foi escrita para a semana em que os hectógrafos tiveram um tema até repugnante, mas bem criativo: "excrementos". Vale a pena ler os arquivos do Mimeographo e passar lá esse mês para acompanhar a série de posts especiais de aniversário.