quarta-feira, 22 de novembro de 2006

NOTA PARA SER LIDA NO ALTO -FALANTE DE ARROZAL

Difícil agora é andar pelas ruas estreitas de Arrozal. Impossível será cruzar a pracinha – agradável e movimentada como de todas as pequenas cidades – sem ter o coração apertado. Sentar no Bar do João para tomar um caldo, então... Melhor não sentar. Não terá o mesmo gosto. Está faltando Valéria Galvão, filha do Zezé da Praça.

Está faltando aquela boa moça, sempre de sandálias rasteiras e as mãos nos bolsos de uma calça larga, que incluiu Arrozal no mapa para muita gente. O riso fácil de uma grande alma e uma ajeitadinha nos óculos de uma mente brilhante. A espontaneidade daqueles que falam com as mãos, gesticulando o tempo todo como se quisesse abraçar o mundo. A torcida de uma rubro-negra “flanática”. O desprendimento de quem sabe doar-se sem esperar nada em troca. A simplicidade dos puros de coração e a humildade de quem sabe que melhor que ensinar é poder aprender sempre.

E se Arrozal está meio apagada é aquele brilho no olhar de quem tem determinação e sabe onde quer chegar que está fazendo falta. Se não há suspiros como antes, é que faltam os sonhos da filha do Zezé da Praça. Valéria sonhava quando criança em ter uma banca de jornal para passar o dia lendo. Acabou virando jornalista das melhores, daquela admirável espécie em extinção.

Mas, Valéria era modesta. Era orgulhosa apenas pelos outros. Não escondia o orgulho de ser filha do Zezé da Praça e por seu pai ter ido a sua formatura com a camisa do Flamengo e chinelos havaianas. Ficou toda boba quando sua mãe foi aprovada num concurso público, admirava a beleza da irmã e era fã incondicional do irmão. E era engraçado ver que ela orgulhava-se do marido Isaque tanto por ele ter se tornado um cervejeiro, quanto por ela o ter conhecido quando ele integrava um grupo de pagode. Ele tinha vergonha, ela tinha um baita orgulho.

Desde domingo, quando o alto-falante da igreja de Arrozal anunciou o falecimento de Valéria Galvão, filha do Zezé da Praça, aquele não é mais o mesmo lugar. Numa só pessoa, perdeu tantas coisas boas, que será difícil fazer a vida engrenar novamente. Mas ela vai seguir, apesar da saudade. Porque Arrozal não perdeu a graça e tem uma linda promessa, com um ano de idade, que continuará sendo terra de gente boa: Tem Maria Carolina, filha de Valéria Galvão, neta do Zezé da Praça.