segunda-feira, 28 de maio de 2007

AMOR ENTRE ASPAS

Abre aspas. Você não me liga antes de dormir e eu não espero seu telefonema. Durmo tranqüila, quando consigo. Não é você, no entanto, a causa da minha insônia. Pelo contrário. De vez em quando eu até penso em você para chamar o sono, mas não é sempre porque – lembra? – também tem o método dos carneirinhos. Então, eu conto você e carneiros até dormir. Ou tomo um remédio.

E é estranho. Embora sempre estejamos um no plano do outro, a gente nunca tem planos pra hoje à noite. Eu tenho os meus, você tem os seus e às vezes a gente combina depois. Outras vezes, a gente se esbarra. E é inevitável. Sobrevivo a sua ausência, mas não resisto a sua presença. De perto, você é tão urgente...

Pára de me olhar assim. Pra você eu não sei dizer não. Quer saber? Acabei de sentir saudade de você agora que te vi. E talvez logo mais eu nem veja a hora de você ir embora. Mas sei que vou querer que você volte, inesperado, extravagante.

É que eu gosto de você sem compromisso, sem hora marcada, sem almoço de domingo, sem conta conjunta e sem querer pra sempre. Só agora. Gosto de súbito. Sem pensar. Sem calma. Desse meu jeito libertário, desse seu jeito libertino. De um jeito que eu nem sabia gostar. Mas – e daí ? – que, por enquanto, estou gostando de gostar assim. Um pouco menos alma – acho. Fecha aspas.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

QUASE-POUSO

Logo agora que eu estava aterrissando, ventou. Logo agora que quase estava tocando completamente o chão. Ele estava tão perto, tão firme, tão possível. Cheguei a me esticar toda para alcançá-lo mais rápido. Um estalo do corpo-na-alma. E meus dedos já resvalavam a terra firme. Suas pontas iam se sujando ao poucos. E eu gostava de tê-los sujos. De terra e de sangue – quase da mesma cor, sabe? Porque, não te disse, mas sangrava, machucava, arrancava a pele fina. E ainda assim queria entrar de sola, caminhar sobre pedras, ganhar calos, ficar em carne-viva, porque eu precisava de um pouso urgente. Mas, ventou. E eu voei

sexta-feira, 18 de maio de 2007

NAQUELE DIA EM QUE NÃO TE DISSE POR QUÊ

...porque sempre que amanhece ainda é ontem. Porque não tem nada demais – e isso pra mim é pouco. Porque está clareando. Porque sem querer eu já sinto um leve desespero de querer. Porque eu perco o jeito. Porque eu desconserto. Porque me assusta essa alegria súbita. Porque, de repente, só o agora não me interessa mais. E eu quero sim saber se amanhã à tarde ainda vou estar alegre. Porque isso você não sabe me responder. Porque sua alegria é antes de ontem. E eu não quero ser triste depois de amanhã. Porque o vizinho já acordou. Porque eu ainda nem dormi. Porque eu não quero ganhar na mega-sena. Porque você leva jeito pra bilhete premiado. E essa sorte eu queria ter. Porque você é todo errado, mas combina. E eu até já te sei de cor. Porque se está perto de um coração selvagem. Porque aqui é um desassossego só. Porque ainda nem falamos sobre isso. Porque eu gosto desta trilha sonora. Porque ultimamente está fazendo frio. E eu estou implorando por um tempo bom. Porque você não faz previsão do tempo. Porque....olha o sol! Porque você é um, mas é outro. Porque estou achando que te inventei. Porque você pode ser apenas mais um. Porque eu fui a próxima. Porque você tem uma história real e eu faço contos. Porque eu nem sei em que rua você anda. Porque eu não sei onde quero pisar. Mas você gosta de saber dessas coisas. Porque o jornal acabou de chegar. Porque isso não está escrito lá. Porque você não é caso para o acaso. Nem eu. Porque você é concreto. Porque eu sou abstração. Porque enquanto você faz seus planos, eu desfaço os meus. Ah, porque seu time... bem, melhor não falarmos de futebol. Porque você acha graça. Porque me irrito. E vice-versa. Porque um dia eu vou conhecer um amigo seu. Porque você vai dizer por aí que não me entende. Porque eu sei (tomara) que vai passar. Porque, apesar disso, ainda vou te ligar. Porque, você não sabe, mas eu vou chorar. Porque eu quero pular de pára-quedas. E porque você não gosta de altura. Porque o padeiro passou. E eu não tomo café da manhã. Porque eu não estou em você. Nem em mim. Porque você admira, mas não sobrevive à loucura. Porque você não entende que lucidez é relativo. Porque (por que) o silêncio. (?) Porque eu preferi dizer tudo num fôlego só. Porque eu merecia fazer isso por mim. Porque não adianta você dizer que não entende por que a gente não deu certo. Porque eu sei. Porque é difícil ir embora, mas tenho que ir. Porque você quer ir. E eu vou deixar. Porque ainda é ontem e eu já preciso ler o jornal, porque...

segunda-feira, 14 de maio de 2007

ENQUANTO ESTIVE OFF-LINE*

Que menina especula!
O que eu estou fazendo aqui?
De onde vim?
Para onde eu vou?
Qual é o caminho?
É pra direita?
É pra esquerda?
Ou é pra seguir em frente?
É longe?
Já chegou?
Saudade dói?
É pecado?
Deus existe?
Tem certeza?
Quem veio antes: o ovo ou a galinha?
Você tem fome de quê?
É da pizzaria?
É da livraria?
Engorda?
O que você está pensando agora?
Está rindo do quê?
Já sabe da novidade?
Isso é amor?
É pra sempre?
E quando você for embora?
Vai doer?
Que dia é hoje?
Que horas são?
Até quando?
O que é isso mesmo?
Quanto custa?
Tem desconto?
O que é o que é?
Vai chover?
Está fazendo frio?
Que calor é esse?
O mundo vai acabar?
E agora, José?
Vamos beber?
Onde?
Tá maluco?
Perdeu a noção do perigo?
Você sabe com que está falando?
E nem quer sabe, não é?
Isso vai ficar assim?
E o que eu tenho com isso?
Quer saber da minha vida?
Eu te conheço de algum lugar?
Qual é o seu nome?
Quantos anos você tem?
O que é você faz?
Como é que se faz?
Na minha ou na sua?
Você me dá mais uma chance?
Hã?
Hein?
O quê?
Posso perguntar?

- Qual é o miolo da tripa?


Leveza
Leve-me.
Leve-me daqui.
Leve-me para longe
Leve-me ao céu, ao inferno, para o alto da montanha, para a beira do mar
Leve-me para onde quiser, mas
Leve-me.
Leve-me pelas mãos, pelos cabelos, nas costas, no colo, no bico
Leve-me de qualquer jeito, mas
Leve-me.
Leve-me ao amanhecer, ao meio-dia, no pôr-do-sol, na madrugada
Leve-me a qualquer hora, mas
Leve-me.
Leve-me as angústias, as aflições, os medos, todos os "ses" e,
Leve,
Leve-me de vez.

Que...
Que eu ria à toa
Que eu chore de emoção
Que eu contemple o silêncio
Que eu suspire
Que eu inspire e
Que eu continue respirando
Que eu queira ser livre
Que eu me solte
Que eu faça a revolução
Que eu me dê a alforria
Que eu sinta o sol queimando minha pele
Que meus cabelos estejam ao vento
Que minha mochila esteja nas costas e
Que meus pés estejam na estrada
Que eu queira abraçar o mundo com as pernas e
Que não me faltem as pernas
Que eu quebre a cara
Que eu estenda a mão
Que eu dê o braço
Que eu me entregue de alma e
Que eu ganhe um coração
Que não falte poesia
Que não falte o rock and roll
Que não me faltem os amigos nunca e
Que os bares não fechem cedo
Que eu abrace
Que eu beije
Que eu ame
Que eu queira
Que eu deseje
Que eu sonhe
Que eu faça e aconteça

Que eu viva!


**********
...de repente, tudo ficou tão estranho e claro.
Senti tristeza na alegria esfuziante.
Eu via a fuga na embriaguez libertadora.
E no meio de toda aquela gente superficialmente feliz
e profundamente embriagada
nunca me senti tão só.
Só eu que sou só nesse mundo?
Ou somos um mundo de sós?
Verdadeira e melancolicamente sós,
como tenho sido, sempre que me dou conta de mim...


Astrologia
Lua, sol, planetas, satélites, cometas
Na casa de vênus
Ou na casa de marte
Corpos celestes.
Os astros já previam: dia de ver estrelas


Dor
Dói é saber
Que tudo foi
Sem nunca ter sido nada.


Pra sempre
Não quero uma noite,
Ou um dia.
Nem um dia e uma noite todinha.
Uma semana, um mês, um ano...
A vida inteira pra mim é pouco:

Eu quero a eternidade particular de um instante.


*Nos últimos tempos, tenho sido egoísta. Falado pouco, pensado muito, escrevendo às vezes e publicando nunca. É timidez. É medo. É bobagem. É ciúme. É particular. É segredo. É tão meu, mesmo que nem sempre seja eu... Mas, às vezes eu mudo de idéia.