segunda-feira, 25 de junho de 2007

LIMPANDO AS GAVETAS

Era um mundo de papel. Muitas folhas, tamanhos diversos, brancas, coloridas, rabiscadas, desenhadas, recortes de jornal, blocos de anotações, uma coleção de garranchos, declarações vazias e documentos tão importantes pra mim que nem pra rascunho serviram aos outros. E em pensar que tudo poderia ter ido para o lixo muito antes numa sacola de supermercado! Não apenas numa limpeza definitiva, mas em qualquer faxina corriqueira. Mas, não. Sempre achei que eu (ou, pretensão minha, alguém) ia precisar daquilo que escrevi sei lá quando, que ia me fazer falta (ou a alguém) aquele pedaço de papel que eu nem me lembrava que tinha, mas insisti em prendê-lo com o peso desse meu apego desmedido às coisas banais. É sempre assim. E, de uma hora pra outra, porque eu precisava tirar esse peso e me desfazer dos papéis, eu joguei tudo fora. Não sem esse incômodo sentimento de perda, porque o que virou lixo hoje era até há pouco o meu imenso mundo de papel.

Achei muito triste ver minhas gavetas vazias.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

ANTES DE PARTIR, UMA CONVERSA*


— Vim me despedir.

— Com franqueza, não me animo a dizer que você não vá.

— Que bom, fico feliz, porque eu vou mesmo. E nada me demoveria dessa idéia que por tanto tempo acalentei como um sonho impossível. Agora, porém, estou decidida a ir, ainda que sem roteiro, sem grandes planos, sem ao menos levar um mapa por pura precaução. Eu apenas vou.

— Eu, que sempre andei no rumo de minhas venetas, e tantas vezes troquei o sossego de uma casa pelo assanhamento triste dos ventos da vagabundagem, eu não direi que fique.

— É um alento ouvir isso. Como ninguém, você pode compreender o que se passa em segredo comigo. Há em mim um desassossego que faz querer voar longe. Poderia ser o que chamam de espírito desbravador ou o gosto pela aventura, mas sei que não é. É tão-somente minha alma aflita.

— Em minhas andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando outra.

— No meu caso, acho que estou fugindo de alguma coisa e caçando outra. Não sei o quê exatamente.

— Você talvez esteja fugindo de si mesma, e a si mesma caçando...

— (Suspiro). Sinceramente, sempre soube que nisso consistia minha procura. Difícil é admitir-se perdida em si mesma. Então, escolhi seguir em procuras paralelas que, de repente, possam me levar a mim ainda que por caminhos tortuosos.

— Só que, nesta brincadeira boba passamos todos, os inquietos a maior parte da vida – e às vezes reparamos que é ela que se vai, está sempre indo, e nós (às vezes) estamos apenas quietos, vazios, parados, ficando. Assim estou eu.

— E é isso o que me perturba. Será que passarei a vida inteira nessa incansável procura até chegar à conclusão que tudo tenha sido em vão e que mesmo seguindo na direção do vento e das venetas, na verdade, sempre fui eu que fiquei numa paragem e ela – a vida - se foi esvaecendo? Porém, não convém pensar nisto neste momento de partida. Vou-me embora e quero levar comigo toda a vida que ainda há para viver.

— Apenas quero que dentro de si mesma haja, na hora de partir, uma determinação austera de não esperar muito; de não pedir à viagem alegrias muito maiores que a de alguns momentos. Como este, sempre maravilhoso, em que no bojo da noite, na poltrona de um avião ou de um trem, ou no convés de um navio, a gente sente que não está deixando apenas uma cidade, mas uma parte da vida, uma pequena multidão de caras e problemas e inquietações que pareciam eternas e fatais e, de repente, somem como a nuvem que fica para trás.

— Talvez até aqui tenha vivido à espera desse instante que nunca chega. Como se houvesse passado os anos fazendo e refazendo malas, juntando roupas, escolhendo discos, separando livros, antes de me entregar à liberdade inconseqüente de uma viagem sem destino, dar adeus a toda a angústia cotidiana e partir...

— Esse instante de libertação é a grande recompensa do vagabundo; só mais tarde ele sente que uma pessoa é feita de muitas almas, e que várias, dele, ficaram penando na cidade abandonada.

— Na ânsia da partida, não sinto deixando parte de mim a zanzar por aqui. Mas, como disse, se há de ficar almas minhas vagando nesta cidade que elas fiquem próxima a você. Sempre uma boa companhia para espíritos errantes, vadios e solitários como o meu.

— Sabe, há instantes bons, em terras estrangeiras melhores que o das excitações e descobertas, e as súbitas visões de beleza sonhadas.

— Não acredito. O que será melhor que o êxtase do novo, a inebriante paisagem vista pela primeira vez?

— São aqueles momentos mansos em que, de uma janela ou da mesa de um bar, ele vê, de repente, a cidade estranha, no palor do crepúsculo, respirar suavemente como velha amiga, e reconhece que aquele perfil de casas e chaminés já é um pouco, e docemente, coisa sua.

— Será quando serei mais feliz: estarei me reconhecendo no desconhecido. E se, inesperadamente, deixar cair uma lágrima, talvez tenha começado a me encontrar.

— Mas há também, e não vale a pena esconder nem esquecer isso, aqueles momentos de solidão de morno desespero; aquela surda saudade que não é de terra nem de gente, e é de tudo, é de um ar em que se fica mais distraído, é de um cheiro antigo de chuva na terra da infância, é de qualquer coisa esquecida e humilde – torresmo, moleque passando na bicicleta assobiando samba, goiabeira, conversa mole, peteca, qualquer bobagem.

— Essa, no entanto, é uma saudade que sinto mesmo estando aqui onde sempre estive. Saudade do que vivi e do que não vivi. Talvez seja também por isso que estou partindo. Talvez encontre onde quer que eu vá, em qualquer lugar distante, mesmo nos momentos de solidão, essas bobagens que já me fazem faltam.

—As bobagens do estrangeiro não rimam com a gente, as ruas são hostis e as casas se fecham com egoísmo e a alegria dos outros que passam rindo e falando alto em sua língua dói no exilado como bofetadas injustas. Há o momento em que você defronta o telefone na mesa de cabeceira e não tem com quem falar, e olha a imensa lista de nomes desconhecidos com um tédio cruel.

— Rubem, de novo, você está fazendo chorar essa viajante... (Pausa). Mas, saiba, que quando eu estiver entregue à solidão que agora estou indo buscar e ainda não tiver me encontrado em mim é deste momento e de suas doces e sensíveis palavras que me lembrarei. Será hora de voltar. Ou de, mais uma vez, partir.

— Boa viagem, e passe bem. Minha ternura vagabunda e inútil, que se distribui por tanto lado, acompanha, pode estar certa, você.

* O texto em itálico são trechos de “A Viajante”, de Rubem Braga. Crônica e cronista preferidos da autora.

** Publicada originalmente no Mimeographo

domingo, 17 de junho de 2007

OUVINDO BLÁ BLÁ BLÁ...EU TE AMO

“Uma noite ela me disse ‘quero me apaixonar’ como quem pede desculpa a si mesmo”
(Lobão/Arnaldo Brandão/Tavinho Paes)


É disso de não saber o que é. De ser esquizofrênico, urgente e só nosso. É tudo isso e ainda é muito pouco. Porque não quero apenas tirar o seu chão em segredo, mas eu queria também poder dar a mão a alguém no passeio público.

Do que me adianta ter você a hora que eu preciso, se eu quero alguém inclusive nos momentos em que eu não preciso? Só para estar ao lado, ao alcance de um toque. Do braço, não do celular.

Confesso que gosto de te ouvir sussurrando suas vontades no meu ouvido, mas o que também espero de alguém são declarações explícitas e promessas excessivamente sentimentais. E não vai adiantar você me prometer noites intensas e especiais, se há muito tempo o que desejo é alguém pra me amar, inclusive, num meio-dia tranqüilo e comum.

Sabe, é que você ainda se recompõe no dia seguinte para sua pretensa vida perfeita e eu vivo sonhando com alguém tão imperfeito que se desmanche continuadamente. Alguém que tenha a coragem de me olhar nos olhos tão fundo pedindo pra se perder e não que desvie o olhar, como você faz quando, de repente, parece ter medo de se dissolver em mim.

E, não é sem esse leve sentimento de bem-que-poderia-ser, que digo que esse alguém não é você. É que você é só isso, quer ser só isso e, sim, eu espero muito mais. Entre querer você e amar alguém, estou implorando pela segunda opção. Desculpa, mas eu quero me apaixonar.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

SOBREVIDA

À parte isso tudo
(de desencanto, de medo e de paralisia),
há a vida que sobra.
E é da sobra que eu sobrevivo.
Esse resto da vida toda que me resta
é o que eu preciso para ter vida sobre.
E eu vou rapar tudo.
Até o fundo,
Com força, fome e sede.
Das sobras.
Não vou deixar sobrar nenhuma rapa.
Porque eu preciso de um resíduo qualquer para viver sobre
(o desalento, o sono e a apatia).
E eu gosto dessa sensação de possuir todo o resto,
do gosto do que se esgota e me sobra.
Chega de desperdício!
Vida não se joga fora assim.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

ABOMINÁVEL PÚBLICO*

Mas, é que palhaça, no sentido infame da palhaçada, tenho sido eu. Por que hoje tem marmelada? Tem sim, senhor! Como teve ontem, terá amanhã, depois de amanhã, depois, depois e terá para sempre. O circo está armado e o Carequinha, que fazia rir o riso bom, infelizmente não tem nada ver com tudo isso que tenho sido.

Nesse picadeiro – que não foi feito para artes circenses, mas tem muito que ver com Panis et Circenses e aquelas ‘pessoas na sala de jantar ocupadas em nascer e morrer’ – eu tenho sido nada mais que ridícula aos outros. Às vezes, até a mim. Porque, tanto tempo depois, eu ainda quero cantar por aí minha ‘canção iluminada de sol’ e ‘mandar plantar flores de sonho no jardim do solar’.

Vê se pode! Ainda espero para a vida muito mais do que apenas nascer e morrer. E isso parece à lógica do ‘manda quem pode e obedece quem tem juízo’ uma palhaçada no mais vil dos picadeiros. Mas, como sou palhaça, adianto com um largo sorriso no rosto, que juízo eu até tenho, mas uso com moderação.

Os tempos andam difíceis, costumam me repetir. Nada está fácil, avisam. E eu, fazendo graça, querendo deixar tudo para trás como se estivesse em época para isso. Carregando comigo um anacronismo romântico, tolo e sonhador, que serve de chiste barato a essa gente que insiste em querer me colocar um nariz redondo vermelho.

Em vão, me recomendam manter os pés no chão e tirar a cabeça das nuvens. Mas, palhaço que é palhaço, como eu tenho sido, vive de pernas para o ar e vê o mundo de cabeça para baixo. Não é à toa que estou achando tudo muito errado. Sem graça mesmo. Tem até me causado vertigem.

Na minha condição de palhaça - com todo o respeito ao Carequinha e aos demais profissionais da graça, pois obviamente se incluem numa outra categoria, muito, mas muito superior à minha de palhaça do cotidiano – tenho passado vexames públicos, me atrapalhado em conversas, caído (no chão e no choro) diante dos outros e metido os pés pelas mãos.

Tenho, como palhaça que sou, feito rir um abominável público. Porque público respeitável era do Carequinha. Esse que me serve de platéia – que espera somente pelos tropeços e tombos - ri de qualquer coisa, de deboche, de sarcasmo, de mim (mas, não para mim), de qualquer um que sirva de palhaço, mas não sabe rir de alegria.

Quanto a mim, com os meus imaginários sapatos enormes, nariz vermelho e peruca colorida, depois de tanta palhaçada ainda vou cair na gargalhada. Vou rir, rir muito até perder o fôlego, antes de uma nova palhaçada em outro circo que se armará. Mas, por enquanto, tudo o que quero é deixar esse picadeiro e sair de cena. Como palhaça até, mas em grande estilo. Vou dar cambalhotas pelo mundo.

Publicado originalmente no Mimeographo.