terça-feira, 31 de julho de 2007

TUDO BEM?


(Não vai adiantar eu te explicar como são e estão as coisas por aqui. Como vai tudo indo estranho e sem convicção. Ainda assim tenho deixado ir pra ver como tudo pode ser sem minhas habituais provocações e ansiosas intervenções. Juro, eu tenho tentando ser blasé, apática. É difícil. Não é bom. Mas, disso, acho, você não quer saber.

E se eu te dissesse que tenho sentindo muito frio nesses dias quentes, você entenderia? Que numa quarta-feira de manhã me senti tão sozinha a ponto de querer ir a uma feira-livre comprar uma melancia. Por acaso você sabe como eu não suporto feira-livre? E que não como melancia? Mas, quis ir lá ver que existe a vida real além destas paredes brancas. E para tentar provar para mim mesma que melancia não pode ser tão ruim assim. Nada pode ser tão ruim assim como está parecendo.

Será que você ouviria, sem irritação, que outro dia, arrumando minha estante, achei dentro de um livro uma carta antiga que escrevi, mas não enviei. Era uma explicação, um pedido, uma declaração, uma tentativa. Tudo que, de perto, tão perto, jamais consegui verbalizar. E eu me culpo tanto pelas coisas não-ditas, tanto que desde então tenho pensado muito em enviar a tal carta. Só pra dizer, enfim.

Faz diferença pra você saber que depois daquela festa, que, sim, estava ótima, voltei pra casa chorando. Mais: que eu vivo por aí distribuindo sorrisos públicos e chorando escondido. Que eu quero fugir, mas não quero deixar nada pra trás. Que sinto saudade do que nunca tive. Que tenho ciúmes do que não é meu. Que todos os dias refaço planos, talvez por uma vontade inconsciente de não querer colocar nenhum em prática porque no fundo eu só esteja querendo ser salva pelo acaso. Que eu tomo fluoxetina e ouço Nina Simone cantando Feeling Good, tentando me convencer que é mesmo "um novo dia, uma nova vida pra mim e eu estou me sentindo bem". Mas, que apesar disso, tenho pensando muito na morte como experiência e outro dia até tomei um iogurte vencido. Nada além disso.

Às vezes, é tudo tão insuportável, que até parei de ler jornal para não saber dessas dores do mundo e não correr o risco de saber ainda mais das minhas. E você, que eu sei que logo mais vai comentar a última tragédia, suportaria saber o que eu sinto de verdade? Dessas dores que não são do mundo, mas são tão minhas? É. Deixa pra lá. Você só quer saber se está tudo bem).

- Tudo e você?

quinta-feira, 26 de julho de 2007

NOVINHO EM FOLHA

Não, você não errou o endereço. É o Páginas Rasgadas que - embora continue o mesmo, com suas atualizações bissextas – está novinho em folha. Claro, que tudo isso só foi possível graças à nova amiga Natália Gregolin, de São Pedro (SP). Estudante de jornalismo, com jeito de publicitária, contista, cantora e violonista, ela arranjou tempo e disposição pra fazer um novo layout pro Páginas. Agora sim, o blog parece comigo: até All Star ele usa!

Natália, obrigada pela paciência! Sem palavras pra te agradecer.

terça-feira, 17 de julho de 2007

UMA DEDICATÓRIA EM VIRGÍNIA BERLIM




Dessas paixões que chegam quando estamos distraídos. Desses casos mal-resolvidos. De amores, de dores e uma experiência. Tão brutal quanto delicado. Li Virgínia Berlim - Uma Experiência, o novo livro do jornalista e escritor Luiz Biajoni, numa dessas minhas madrugadas insones e sem paciência, que você não ocupa mais. Com exceção, claro, quando me entrego àqueles remotos e tontos pensamentos...

Enfim, eu tinha dormido um pouco de dez e 23 (a última vez que vi a hora) até meia-noite e nove (quando abri os olhos). E já era mais um daqueles domingos vazios que eu ia ver amanhecer. Na geladeira, duas cervejas de ontem e à mão um livro que me cheirava “beat” e que não me dava nem o trabalho de escolher a trilha sonora, porque vem junto um CD, incluindo algumas canções do Lou Reed. Era isso – e eu nem te imaginava.

Mas, tão logo me entreguei à sensível e genial “experiência” de Biajoni (experiência mesmo, porque até agora fico me perguntando se é um romance, se é um conto, prosa poética ou tão-somente um desencanto que um cara soturno que eu pudesse ter conhecido ao acaso me confidenciou), foi em você que pensei:

“Não podia acreditar no que tinha acontecido. Não podia. E tudo tão rapidamente me deixou com uma sensação de vazio que chorei. Mergulhei em soluços como um bebê. Por que foi assim? E chorei um pouco de dor. E chorei um pouco de medo por perceber que talvez a estivesse amando profundamente”.

E como não pensar, não? As expectativas, os conflitos e a perda de um amor. Todos esses sentimentos embalados por uma trilha sonora perfeita, que é de Virgínia Berlim, mas podia ser... Um disco que começa com Must I Paint You a Picture?, inclui I Don’t Stand a Ghost of a Chance With You e termina com The Bed, realmente podia ser.

Sabe, assim que terminei o livro eu chorei. Um choro que havia sido contido lá atrás, naquele tempo em que eu fingia não sentir dor. Mas doía. E, desde então, me pego pensando em Virgínia, no cara soturno e...

"Virgínia Berlim - Uma Experiência" é pra ler num fôlego só – e perdê-lo depois.


P.S. 1: Pensei em você, mesmo antes de saber que o autor recomenda presentear um amor do passado com o livro. Só não sei ainda como entregá-lo.


P.S 2: Aos demais, eu também recomendo: compre aqui dois exemplares de "Virgínia Berlim – Uma Experiência", publicado pela editora Os Vira Lata. Um pra você e outro pro seu amor perdido.



sexta-feira, 13 de julho de 2007

LOVE SONG*


Não foi o olhar confuso o que a atordoava. Não era o riso nervoso de quem parecia estar achando a cena toda ridícula que a magoava. O abraço frio – daqueles em que apenas os corpos se encostam por conveniência social, enquanto as almas se mantêm à distância – era, para ela, apenas a materialização da fina indiferença que há tempos se estabelecera entre eles. Saber que o caso, que fora intenso e belo, chegara ao fim sem ao menos uma segunda chance a deixava com um leve sentimento de derrota, mas comprovava a sua teoria – e ela tinha muitas – de que seus relacionamentos eram fadados ao fracasso. Nada demais.

Estranhamente, o que doía, a dor mais profunda que já sentira, e a incomodava a cada lembrança que insistia em assombrá-la, era saber que tudo o que vivera não era cantado por uma música em especial. Aquela que depois do caso acabado serviria como trilha sonora para a cena clássica de depressão pós-romance mal sucedido. E, anos mais tarde, quando estivesse distraída no corre-corre da vida que segue, a permitiria amar aquele homem novamente no curto instante de uma execução ao acaso.

De toda aquela história, no entanto, restara apenas um silêncio sufocante e triste. Sem música, ela não conseguia chorar o caso de amor perdido. Sem música, ela não poderia amá-lo eternamente ainda que por alguns poucos minutos da canção que eles não tinham. Sem música, tudo que sentira quando esteve junto a ele era nada. Porque história de amor sem uma música que a cante pode ser uma história qualquer, mas não uma de amor.

Era essa a sua dor. A angústia de que talvez tenha sentido tanto, se entregado tanto para um caso de não-amor. Às vezes, lembrava-se das muitas músicas que embalaram seus encontros fortuitos, mas, em seguida, voltava-se à aflição de não ter uma que cantasse a sua história com tal singularidade e delicadeza.

Passou dias num completo silêncio. Até que lhe começassem a soprar aos ouvidos uns acordes. Eram solos de guitarra. Passou outros dias ouvindo mentalmente esse som, até que se permitiu sussurrar versos melancólicos para seu romance mal resolvido.

Tem gente que inventa o amor, ela só teve que fazer uma baladinha rock and roll.


*Publicado originalmente no Mimeographo. E republicado aqui porque hoje é Dia Mundial do Rock.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

BLOCO DE NOTAS

Entre o meio fio e a lua
Estava bem ali,
entre o meio fio e a lua,
aquele tanto que faltava pra enlouquecer.
Saí de lá contando pedras e catando estrelas.


Silêncio
O que me dói
é o seu silêncio:

seus olhos calam sobre mim.


Procura
De copos em corpos
procura-se
alma.


Comigo
Deixe-me ficar só comigo
Preciso da minha companhia
Ouvir o que diz o meu silêncio


Pensar
Pensar dói
Essa dor dilacerante
de ter a consciência de ser
— e não ser.


Virada
Seis da manhã
Ainda não dormi
E o dia já amanheceu
com a tristeza de ontem.


Acompanhada
Eu estou fazendo companhia pra solidão.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

O RASTRO DA LESMA

“A lesma quando passa deixa um rastro prateado” Ana C.

E eu, se fosse você, seguia esse rastro até o poeta Alessandro Alex.
Doido. Doído. Inspirado. Gênio.


Visite: O Rastro da Lesma

quinta-feira, 5 de julho de 2007

A GENTE SE VÊ*

Então, andei pensando sobre nós... Quer, dizer, sobre mim e você separadamente e nas vezes em que pelo acaso – só ele mesmo, ou o que mais explicaria isso? – estivemos juntos. Porque eu e você nunca fomos nós. Sem essa de primeira pessoa do plural. Somos, quer dizer, eu sou e você é, cada um modernamente na sua, primeira pessoa do singular, lembra? Eu daqui, você daí e a vida é tão boa assim. Mudar para quê, não é mesmo? Diga que sim.

Calma, ninguém aqui está discutindo relação, pois nós bem sabemos, digo, eu sei e você sabe não existe relação a discutir. Existe algo, entretanto, que precisa chegar ao fim antes que tenha início mais desse algo que de alguma forma passou a existir, mas que também não é nada, entende?

Porque mais fácil, infinitamente mais fácil, do que realmente começar algo - que pode dar certo, mas, eu sei e você sabe, vai dar errado – é terminar tudo logo de uma vez. Eu disse tudo? Na verdade, eu quis dizer nada.

Nada de devolver aquele moletom velho que você não deixou lá em casa. Nada de ter que te receber num final de tarde melancólico com você trazendo aqueles meus dois livros e três filmes que eu por acaso pudesse ter te emprestado. Nada de ter que desconstruir intimidades. Nada de ver meu cachorro amuado num canto sentido falta de suas brincadeiras. Nada de ficar me remoendo ao ver velhas fotos e ler antigas correspondências. Nada de querer te guardar numa caixa no fundo do armário. Nada de sentir saudade de você ocupando minhas tardes vazias. Nem as noites frias, nem os dias quentes.

Porque nada é nada. E ponto. Até poderia ser tudo, se, porventura, deixasse meu medo para correr risco no seu mundo, e vice-versa. Se atrevêssemos, assim mesmo na primeira pessoa do plural, a ser livres não quando estamos sós, mas, sobretudo, estando juntos. Quem sabe um salto duplo de pára-quedas?

Mas, não. Isso causa vertigem e tanto eu, quanto você resolvemos, donos absolutos de nós mesmos, deixar emoções fortes ‘para quando...’. Até quando? Não sei; você tampouco. E ficamos, digo, eu fico e você fica assim: o que poderia ser o começo de tudo é apenas o fim de nada.

A gente se vê.
Publicado originalmente no Mimeographo.