domingo, 26 de agosto de 2007

NÃO SE PREOCUPEM..


...eu continuo atravessando na faixa de pedestre!

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

A ESTRANHA


Ele foi embora pensando nela. Naquela estranheza que lhe cruzou o caminho em passos tão coloridos quanto sombrios. Tão acelerados quanto leves. Tão desajustados quanto certos. Tão ousados quanto tímidos. Forçosamente mundanos e indisfarçavelmente inocentes. “Rock’n roll meio nonsense para acabar com essa inocência”. Talvez fosse isso. Era qualquer coisa absurda e o tocava tanto. Ela vomitava pra platéia, mas jamais arrotava em público. Fazia companhia pra bêbados, drogados e para as freiras do asilo. Ela jamais xingava a mãe de ninguém, mas tinha uma sinceridade que ofendia tão ou mais. Se ela se defendia em gestos arredios, se entregava num olhar delicado. Ela queria amar, só não admitia. Ele a desejava, só não admitia. E ela tinha tantas dúvidas e certezas no que dizia, que o deixava inseguro. Ela era dada às gargalhadas espontâneas seguidas de choro súbito – e ele não sabia o que fazer. Ele se lembrou de quando a viu pela primeira vez. Ela tomava cerveja de canudinho sentada na calçada, numa cena melancólica e bela. Parecia uma pintura e ele quase quis roubar aquela tristeza incomum. Talvez ela lhe sorrisse serena. Mas, ela não fazia muito sentido, como não fazia sentido ele agora estar pensando naquela estranheza toda com tanta ternura. Logo ele que sempre preferiu a elegância comum e previsível dos sapatos pretos de bico fino.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

A FUGA

Espere pela mais alta madrugada. Pode ser de uma segunda pra terça. Essas tão caladas, tão mais escuras que todas as outras. Psiu! Não faça barulho. Só calce os sapatos lá fora, depois que você tiver fechado a porta para isso tudo que você está deixando para trás. Não deixe que ouçam seus passos. Mesmo que você pise duro, eles se entregarão vacilantes. Tanto que se ouvirem e te perguntarem aonde é que você está indo, é capaz de você dizer que está saindo pra comprar um cigarro. E, mesmo que você não fume, provavelmente, você voltará com um maço barato e fedorento e até pensará na possibilidade de começar a dar uns tragos. Quem sabe as frustrações não virem fumaça?

Se não virarem, vê se na próxima vez que você resolver largar tudo, não se esqueça de calçar sapatos confortáveis. Porque quando você sair sem fazer barulho e alcançar a rua você vai correr, correr, correr... até a hora que você se der conta que o que você sempre quis era ganhar asas e voar, voar, voar... Então, você vai se jogar numa calçada, cansado e sem fôlego e vai tentar se convencer de que realmente você é uma pessoa de sorte por nem ter ganhado calos doloridos.

Será mesmo um alento não tê-los, principalmente porque te fará esquecer rápido que correr não é a solução. Tanto que em vez de você se ocupar em construir suas asas, você gastará seu tempo e energia fazendo um mapa. Que bobagem! Sinto em lhe dizer que mesmo com um roteiro você se perderá na próxima esquina e ficará em dúvida em toda e qualquer bifurcação. É do feitio dos inquietos se perder quando tudo é possibilidade. E, por um instante, você terá certeza absoluta de que o mais seguro não é aproveitar a oportunidade e sumir, mas voltar pra casa andando devagar. Até porque não tem erro: basta seguir as placas do caminho de volta.

E é nesse caminho de volta, quando suas costas começarem a doer com o peso da mochila, onde se carrega essa vontade de tudo, medos inconfessos, riscos não corridos, sonhos não assumidos, idas frustradas e vindas frustrantes, que talvez você, finalmente, perceba que fugir é um engano tolo e covarde. Afinal, quem foi que disse que fuga é libertação?

terça-feira, 7 de agosto de 2007

AH, ITATIAIA*

Ainda que virasse cidadã do mundo, que tivesse visto para os quatro cantos da terra, que conhecesse todos os continentes, que me deixasse encantar pelas mais exóticas paisagens, haveria sempre para onde voltar. Cedo ou tarde, voltaria. E sendo uma forasteira profissional em algum momento sentiria uma saudade amadora que me traria o cheiro de mato molhado, a serração da manhã, o vento que gela a espinha, o céu avermelhado no pôr-do-sol de verão, o canto dos pássaros, o sussurro das cachoeiras e não estranharia se, de repente, sob meus pés surgissem pedras escorregadias de ribeirões. De volta - em espírito, ao menos - eu estaria à Itatiaia, como se nunca tivesse partido.

E, quem dirá, que não voltaria em busca de alguma inspiração vinda das altas montanhas, da “Pedra Cheias de Pontas” (Itatiaia, em Tupi), que avistei por boa parte da minha vida da sacada de casa. A mesma que inspirou Guignard a pintar algumas de suas telas mais famosas, Vinícius de Moraes a fazer sonetos e Rubem Braga a escrever uma singela crônica. Se fosse apenas a água que desce da nascente do Rio Campo Belo a razão de tanta beleza natural transformada em bela-arte, o que seria de mim que com que ela matei minha sede e em suas quedas d’água e córregos sempre me banhei?

A diferença, porém, é que o cartão-postal dos outros é quase o quintal da minha casa. E por ser tão meu, desfrutar tamanha intimidade, o amo mais que qualquer lugar onde ainda não estive. Embora tantas vezes o tenha visto sem tanta devoção. Para mim, a natureza imponente e a beleza exuberante transcendem o deslumbramento visual. É como se cada árvore ou bicho que habita a reserva pudesse contar um pouco de mim. Sobretudo, o que tantas vezes passei por ali pensando. Mas, deles fiz meus cúmplices e, certamente, haveriam de guardar segredo.

Se perguntassem de mim, fauna e flora diriam apenas que foi ali, naquele trecho do rio escondido entre matos – em frente a um hotel abandonado que pertenceu a um tio meu – que dei minhas primeiras braçadas. Que no mirante do Último Adeus costumava fazer pedidos silenciosos. Que no Véu de Noiva, curei uma pneumonia. No Poço do Maromba, escorreguei da pedra e tive medo de morrer afogada. Iriam contar que, certa vez, quis mudar o nome do Lago Azul para Lagoa Verde. Tudo por lá é verde, com exceção do céu quando está azul.

Lembrariam que depois de uma caminhada exaustiva - pulando pedras e segurando em cipós sem muita habilidade – mergulhava afoita na cachoeira do Itaporani ou do Poranga onde tímidos raios de sol encontram brechas na mata e se refletem na água límpida. Esquecia-me que nem sempre estava com roupa de banho adequada, nem havia levado toalha para me secar. O jeito era correr para pedra tremendo de frio e prometendo da próxima vez só entrar na água se estivesse fazendo muito calor.

E falariam do churrasco que meu pai fazia na área reservada dentro parque. Da casa de pedra construída pelo meu avô – um dos primeiros funcionários da reserva - que me enche de orgulho. Das trilhas que meu tio ajudou a abrir e mais tarde eu quis refazer. Da casa feita de tronco de árvore onde passava férias em frente à sede do Ibama. Do orquidário onde brincava de pique - esconde. Dos nomes que dava para os animais empalhados do Museu da Fauna e Flora. E ririam novamente ao se recordarem que apelidei uma jaguatirica de Princesa e um cachorro-do-mato de Totó.

Caso alguém dissesse, com desdém, que Itatiaia só tem duas ruas - uma que vai e outra que vem – então retrucariam à altura que nunca tive motivos para querer mais estando ali. Porque na minha terra além de ter palmeiras juçaras onde cantam sabiás, beija-flores, tucanos e pica-paus há trilhas que me levam ao Pico das Agulhas Negras, às Prateleiras, aos Três Picos e me brindam com uma vista panorâmica e estonteante do Vale do Paraíba. Lá de cima tudo parece pequeno demais, as cidades, os medos e a vida que se deixa cá embaixo.

Então, de repente, uma vegetação rasteira para qual nunca se devia muito o olhar cometeria uma indiscrição. Diria que ali, quando não se é nada diante de toda essa grandeza que não sei bem o que é, costumo fechar os olhos e esticar os braços como se quisesse tocar o céu com as pontas dos dedos. Não conseguindo, sinto no corpo e na alma um leve vento frio como se Deus, por um momento, estivesse me alcançando. E por esse instante fugidio eu voltaria sempre. De onde estivesse, eu voltaria. Nem que fosse para senti-lo apenas mais uma vez.


*Crônica publicada originalmente no Mimeographo. E republicada agora no Páginas porque estou na campanha para que o Parque Nacional do Itatiaia seja eleito uma das Sete Maravilhas do Rio. O primeiro turno da votação se encerra dia 23 de agosto. E não é porque eu sou gente da montanha não, mas o Parque Nacional merece mesmo ser eleito. Para votar no Parque e em outras seis maravilhas acesse:
http://www.7maravilhasdorio.com.br

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

RAUL ESTÁ CHEGANDO

Crônica para meu sobrinho


Vem, Raul! Pode vir trazendo a alegria num sorriso encantador e os sonhos mais doces de menino bom. Já estão todos te esperando, inclusive pelas suas traquinagens. Sim - não conte pra ninguém - você poderá fazê-las, desde que sejam inocentes, é claro. Talvez façam cara feia, mas no fundo vão achar uma gracinha. Se você rabiscar a parede, dirão que você é um pequeno artista. Se você quebrar uma janela com uma bola, você será apontado como um futuro craque.

Tudo bem, eu sei que aí, na barriga da mamãe Rute, está quentinho e confortável, mas você também vai adorar quando o papai Rogério te pegar naqueles braços grandes e te embalar pra dormir. E quando isso acontecer sua mãe vai te dar um beijo no rosto, colocar no berço e os dois passarão horas vigiando seu sono e pensando, com lágrimas nos olhos: “Meu Deus, como ele é lindo!”.

Pode vir sem medo, Raul. Você é um garoto de sorte. Sua mãe é dedicada e carinhosa. Ela amarrará seu cadarço até você dominar essa técnica sozinho. Se especializará no seu prato preferido e jamais você comerá nada tão delicioso. Sua mãe vai te ajudar com os deveres da escola, cuidará dos seus machucados e te ensinará a orar o “Pai Nosso” ajoelhado na beira da cama. E, para seu bem, ela chamará sua atenção sempre que preciso, mas estará pronta a te dar colo mesmo depois que você já não conseguir mais contar a idade nos dedos, mesmo juntando os das mãos e dos pés.

Com o seu pai, tenho certeza que você passará momentos muito divertidos. Ele te levará para o jogo de futebol, te incentivará a aprender música, segurará a bicicleta quando você estiver aprendendo, fará questão de te ensinar a nadar, te jogará pra cima e fará “cosquinha” na sua barriga até fazer você rolar de rir. Ele será seu melhor amigo e sempre te dará a mão, como se você ainda estivesse dando os primeiros passos. Mas, ele também vai exigir que você fale as palavras mágicas “muito obrigada”, “por favor” e “com licença”, que respeite ao próximo, seja honesto e, sem dúvida, que torça pra o Vasco.

Raul, quando você chegar aqui, você ainda vai descobrir um casal de avós paternos fantásticos. Como primeiro neto, você poderá aproveitá-los bem e eles serão seus súditos. A vó Mara é engraçada: ela vai querer dançar com você uma “valsinha” e tocar Berceuse no piano pra te ninar. Para isso, ela já está dando um jeito de cuidar da labirintite e voltou a se dedicar à música. O seu vô Pacífico leva o maior jeito com criança. Ele vai falar pra você uma língua estranha: “Amo”. “Doro”. “Goro mun” e querer você deite com a cabeça nos ombros dele pra dormir. Será ele que te comprará balas, doces e chocolates e vai te ensinar que homem chora, quando você disser pela primeira vez: “Vovô, eu te amo”.

Tem também o tio Cleber, que está planejando comprar uma camisa do Flamengo pra você. Vê lá, hein, menino? Não vai decepcionar seu pai. Principalmente, porque eu sei que você tem tudo pra se dar bem com esse tio. Ele vai querer te ensinar a fazer bagunça, a ser um “garoto esperto”, um conquistador de menininhas e provavelmente vai te dar o primeiro óculos de sol. Ai, ai, ai...

E ainda tem a família da sua mãe em Minas. Certamente, é na fazenda do vô Clemente e da vó Maria Zilah que você passará muitas de suas férias, comendo doce de leite com queijo e tomando banho na represa. E lá sua família é enorme, cheia de tios e primos, que já estão te esperando para aprontar pasto afora para desespero de sua mãe. Pelo que sei, lá parece que todo dia é festa. Você vai gostar tanto que não vai querer que suas férias acabem nunca.

Quando você chegar por aqui, meu pequeno Raul, a tia promete te contar muitas outras histórias. Se quiser, também podemos jogar bola, soltar pipa, brincar de carrinho, de pique-pega e de esconde-esconde. Podemos desenhar, fazer uma aquarela, acampar no quintal, ver filme, ouvir Pluct Plact Zum do seu xará Raul Seixas, tocar bateria, correr para ver o trem passando, olhar pro céu pra avistar o avião, usar fantasia de super-herói, tomar sorvete, pegar goiaba no pé e nos sujar inteiros. E no final de tanta brincadeira você ainda vai se virar para mim e dizer: “Nossa, tia Ju, você parece criança!”. Vou achar lindo, sagaz e pensar: “Puxou da titia”.

Vem, Raul! Vem vindo de mansinho, no seu tempo, engordando sua mãe e trazendo-nos a felicidade: todo nosso amor já é seu, menino.