sábado, 29 de setembro de 2007

EU SOU NORMAL*

Se de perto ninguém é normal, para que vou me esforçar para de longe não parecer maluca? Louca de pedra. Maluca beleza. Doida varrida. Surtada. Insana. Desorientada. Lunática. Doidivanas. Psicótica. Neurótica. Demente. Depressiva. Neurastênica. Esquizofrênica. Obsessiva Compulsiva. Devo ser tudo isso e um pouco mais.

E não é porque eu tomei Gardenal, não. Nem porque, de vez em quando, tenho que recorrer a um Rivotril para dormir algumas horas ou tenho guardado em minha nécessaire um comprido de Lexotan. Tampouco porque diagnosticaram em mim o mau humor crônico e me receitaram fluoexetina uma vez ao dia. Prozac eu não tomo e ponto. Nada de pílulas da felicidade. Quero minha loucura em estado bruto.

Eu admito: ando sim na calçada tentando não pisar fora dos quadrados de concreto. Subo as escadas contando os degraus. E sempre perco a conta. Só sento no lado direito do ônibus e gosto de caminhar somente à esquerda das pessoas. Não consigo dormir sabendo que a luz da cozinha está acesa e que a torneira do banheiro está pingando. Não tenho medo do escuro, mas fico com o rádio ligado o tempo inteiro para não escutar nenhum barulho nas madrugadas insones. Eu tomo banho gelado no inverno.

Se eu estou triste, bebo Coca Light com chocolate como se essa fosse a fórmula da felicidade. Mas, em seguida, me arrependo e fico nervosa por ter ingerido tantas calorias. (As anfetaminas? Onde estão as minhas anfetaminas?). E quando fico nervosa tenho dor no estômago. Às vezes, involuntariamente, até vomito e depois fico encarando meu vômito para ver se descubro o que é que me fez mal. E vomito de novo.

Quando estou puxando os fios de cabelo da minha franja é sinal de que estou ansiosa. Se cerro os dentes e respiro fundo, estou irritada. Se eu brigo é porque não tenho sangue de barata. E, por favor, não me mande manter a calma, porque você estará correndo risco de morte. Se estou de mau-humor, prefiro ficar quieta. Pode deixar que eu falo sozinha.

Também já tive vontade de bater minha cabeça na parede. De morrer e de me jogar num buraco no centro da terra. Sinto dor e não sei dizer onde dói. Não faço nada e sinto cansaço. A vida sempre me parece desinteressante, chata e repetitiva. Jogo tudo para o alto pra começar de novo. Eu choro escondido e digo que estou gripada.

Vivo distraída. No mundo da lua. No meu universo paralelo, faço planos absurdos e mantenho projetos mirabolantes. É nele que minha loucura se manifesta plenamente: um dia eu vou dominar o mundo. E que se atreva vestir em mim uma camisa-de-força quem estiver de posse de todas as faculdades mentais.

Vou tomar um copo de água com açúcar.
*Publicada originalmente no Mimeographo.