quinta-feira, 15 de novembro de 2007

ESCRITA À MÃO

Da próxima vez que eu pedir teu endereço, não me fale em underline, arroba, ponto com, ponto br. E-mail, não te mando mais. E aproveito agora mesmo para te bloquear no Messenger, enquanto penso numa maneira adequada para pôr fim ao meu celular. Não quero me expor ao risco de num momento de fraqueza - ou saudade - te enviar um torpedo. Desses que se pode medir a aflição do remetente apenas pela ausência de vogais em frases codificadas: "kd vc?".

E isso, no entanto, não significa um rompimento definitivo. Pelo contrário, trata-se de uma reaproximação. Uma tentativa assumidamente romântica de em tempos de mensagens eletrônicas tão impessoais - e com as quais vivo me atrapalhando porque favorecem minha impulsividade - recuperar algo que se perdeu como as correspondências de antigamente.

Tudo como era antigamente... É exatamente assim que eu queria que voltasse a ser o que não foi. (Pneumotórax e Bandeira não me deixam nos últimos dias!). E a maneira mais singela que arranjei de mostrar isso, sem ser mal interpretada ou traída pela instantaneidade dos e-mails, foi voltando a escrever cartas.

Tanto faz se for escrita numa página arrancada de um caderno escolar, numa folha branca ofício ou 100% reciclada. Se for escrita à mão, a gramatura do papel será semelhante à textura da minha pele. E antes mesmo do início da leitura, de alguma forma, já estarei sendo sentida. Conseguiria eu novamente tocar teu coração?

Então, me dou conta que certa intimidade se estabelecerá entre nós. Pela primeira vez, você poderá reparar na minha letra quase ilegível. Levemente inclinada para a direita, sem seguir nenhuma recomendação da caligrafia, irregular e desconexa. Sou eu completa e imperfeita quando não estou disfarçada em times new roman. De perto, bem perto, longe da telas do computador e dos visores dos celulares, é como sou. E você finalmente estará reparando em mim.

Ao voltar a me corresponder por epístolas - como uma personagem de José de Alencar - o que eu queria, sobretudo, era devolver aquela ansiedade de quem aguarda uma carta. Aquela espera que, contraditoriamente, sempre será surpresa. A expectativa pela chegada do carteiro que pode trazer em mãos mais do que contas a pagar: uma novidade, uma reconciliação, uma alegria ou, quem sabe, uma confissão.

Da próxima vez em que você pegar as correspondências, procure por um envelope com bordas verdes e amarelas. É que embora ainda não saiba teu endereço, é nele que acabo de colocar tua carta.
Publicada originalmente no Mimeographo

11 Comments:

KÁTIA CORRÊA DE CARLI said...

Você me arrancou lágrimas e saudades... de envelopes azuis, daqueles bem clarinhos... da ansiedade da espera...
Lágrimas da certeza de que nunca mais haverá envelope azul.
Te amo
beijo

Gabriel Araujo said...

kd vc!?

Belle Biajoni said...

é, os tempos mudaram.
ainda penso se é para melhor ou para pior...veremos!


ah...vamos ver se marcamos de novo, a panela voltou a ativa!
beijos

Gabi said...

Que texto mais lindo... agora que você tem novo endereço fixo, podemos voltar a esperar pelos carteiros? rs
Beijo!!

Lú Lima said...

Lia sempre seus textos no mimeographo e no páginas rasgadas, mas nunca tive coragem de dizer o quanto te admirava como jornalista, escritora e como pessoa. Talvez, pela falta de contato ou receio. Agora, "rasgo o verbo" e reforço: Jussara, seus textos e a sua pessoa são admiráveis. Sucesso!

Paulo Galvez said...

Cartas que não te escrevi, Cartas perto do coração ou Diálogos possíveis? Hein, hein, hein?

Yasmim said...

Passeando pela net , e olhando alguns blog´s encontrei o seu. Nooossaaaa , quanto texto fantástico. Olheeei tudoooo! E já sendo bem intima, é minha querida, tempos mudaram . Aiii como eu queria escrever cartas, o máximo que escrevi foram duas.

Um beeeijo

POESIA EM VOLTA said...

Lindo! Me manda teu endereço pois tenho um cartão lindo pra você! Aliás, vou "copiar" um pouco a idéia e começar uma campanha de USE O CORREIO! Beijos

Paulo Galvez said...

Oi. A quantas anda na Paulicéia? Você vai no lançamento do livro do Doni? Se for, pode comprar um pra mim (e pedir, claro, a dedicatória?)? Se der certo, me manda o número da sua conta no e-mail. Aproveitando, faça-me o favor de atualizar o link do Terceiro Caderno? Eu mudei hoje de endereço: http://galvez.tipos.com.br (sem www ou pode ir diereto: galvez.tipos.com.br.) Beijos e saudade.

Mariana said...

Jussaaaa my friend!!!
Saudades muitas de vc e de seus textos lindos como este. E que saudades dos envelopes que recebia com as cartas de amigos.... e os cartões de Natal que hj quase não existem....
Lindo texto mas quero ver coisas inéditas hein, agora que vc está instalada em definitivo não tem desculpas.
Beijos queridona!

Mariana said...

"Não quero me expor ao risco de num momento de fraqueza - ou saudade - te enviar um torpedo. Desses que se pode medir a aflição do remetente apenas pela ausência de vogais em frases codificadas: "kd vc?"."

Perfeito. Há tempos eu procurava expressar minha indignação pela ausência de sentimento e banalização que a internet traz.É como se sugasse toda subjetividade.
Pessoas que buscam fugir disso, como você, que ainda me fazem acreditar que tudo tem jeito.
Obrigada por clarear minha mente.

Beijos =*