domingo, 25 de julho de 2010

SÓ SOFRO EM PARIS

É normal. Às vezes a vidinha segue muito mais ou menos. Não é sempre que ela pulsa vibrante, te dá flores ou é doce como chocolate ao leite. Tampouco é uma festa sem fim a ponto de banalizar o champanhe. Não é. E eu bem sei disso.

Aprendi ainda criança que não é todo dia que dá para fazer piquenique na cachoeira porque não é todo dia que tem sol. Tem dias cinzas, de melancolia arrastada, que chega a chover de tristeza. Mas aí, com a sabedoria infantil, a gente desenhava o sol em volta de um formigueiro, jogava sal e, como mágica, o céu abria. E era a coisa mais linda.

Apesar ser minha fruta preferida, percebi logo cedo que não era o ano inteiro que dava para comer jabuticaba no pé da árvore do quintal lá de casa. Era preciso esperar chegar a primavera e o verão. Demorava, mas, "quando menos se esperava", chegava.

O futebol me ensinou muito também. Impossível o meu Vasco ganhar todas, mas tem sempre um outro jogo em que a vitória liberta o grito de campeão, que outrora ficou engasgado. Perfeccionista, tive que aprender, não sem sofrimento, que erro com frequência. E assim me permiti ser mais humana.

O tempo passa, a gente aumenta as distâncias e descobre que alguns amigos se perdem na multidão. E, por isso, você gosta ainda mais daqueles que ficaram e se abre para que outros cheguem. Numa mesa de bar, num fim de noite, só por tê-los por perto você olha para o seu copo de cerveja pela metade e, definitivamente, acha que ele "está meio cheio".

Aí você se apaixona e nem sempre a recíproca é verdadeira. Dói, mas passa. E quando o amor acontece e, depois, acaba, você se lembra que leu uma crônica de Paulo Mendes Campos que dizia que o amor acaba "para recomeçar em todos os lugares." E é a mais pura verdade.

Foi então que, para economizar o dinheiro com terapia e abandonar o Prozac, tomei uma decisão na minha vida: só sofro em Paris. Chorar na beira do Rio Sena vira filme existencial francês. E é até bonito. No resto do mundo, é melhor tentar ser feliz. Mesmo na adversidade.