É normal. Às vezes a vidinha segue muito mais ou menos. Não é sempre que ela pulsa vibrante, te dá flores ou é doce como chocolate ao leite. Tampouco é uma festa sem fim a ponto de banalizar o champanhe. Não é. E eu bem sei disso.
Aprendi ainda criança que não é todo dia que dá para fazer piquenique na cachoeira porque não é todo dia que tem sol. Tem dias cinzas, de melancolia arrastada, que chega a chover de tristeza. Mas aí, com a sabedoria infantil, a gente desenhava o sol em volta de um formigueiro, jogava sal e, como mágica, o céu abria. E era a coisa mais linda.
Apesar ser minha fruta preferida, percebi logo cedo que não era o ano inteiro que dava para comer jabuticaba no pé da árvore do quintal lá de casa. Era preciso esperar chegar a primavera e o verão. Demorava, mas, "quando menos se esperava", chegava.
O futebol me ensinou muito também. Impossível o meu Vasco ganhar todas, mas tem sempre um outro jogo em que a vitória liberta o grito de campeão, que outrora ficou engasgado. Perfeccionista, tive que aprender, não sem sofrimento, que erro com frequência. E assim me permiti ser mais humana.
O tempo passa, a gente aumenta as distâncias e descobre que alguns amigos se perdem na multidão. E, por isso, você gosta ainda mais daqueles que ficaram e se abre para que outros cheguem. Numa mesa de bar, num fim de noite, só por tê-los por perto você olha para o seu copo de cerveja pela metade e, definitivamente, acha que ele "está meio cheio".
Aí você se apaixona e nem sempre a recíproca é verdadeira. Dói, mas passa. E quando o amor acontece e, depois, acaba, você se lembra que leu uma crônica de Paulo Mendes Campos que dizia que o amor acaba "para recomeçar em todos os lugares." E é a mais pura verdade.
Foi então que, para economizar o dinheiro com terapia e abandonar o Prozac, tomei uma decisão na minha vida: só sofro em Paris. Chorar na beira do Rio Sena vira filme existencial francês. E é até bonito. No resto do mundo, é melhor tentar ser feliz. Mesmo na adversidade.


8 Comments:
Muito bom Ju, perfeito para este "dia fora do tempo"...
bjs
quando for, me chama! vamo pular amarelinha no champs elysees, que segundo o glauco mattoso "amor é infância" (soneto 547)
#574
Se amo não deito.
Se deito não trepo.
Se trepo me estrepo.
Amor é conceito.
Se faço no leito,
Não caio no laço.
Amor é cabaço.
Amor é conceito.
Amor é perfeito:
Quem dorme não peca.
Amor é soneca.
Amor não tem jeito:
Amor é distância.
Amor é infância.
Adorei Ju, concordo que sofrer em paris vale mais a pena! Beijos
Querida Jussara
Imagino o que te levou a esse texto.Mas vc está certíssima.Só sofra em Paris.Vc é maravilhosa minha amiga,e única.
bjo
Rê (Klotz)
PS: só fiquei um pouquinho feliz pq a adversidade te fez voltar a escrever.
Gosto dos seus textos :)
abração
Sandra
Ai ai ai...amiga...pra que sofrer, vamos é fazer compras em Paris...rsrsrs....brincadeirinha...
Amei o texto Jussa, estava com saudades de ler seus textos...e com saudades de vc também...
Vamos sofrer em Paris, comendo um chocolate (na Europa eles são muuuito mais gostosos) e tomar Coca light - será que lá tem? Hahahaha. Beijo, amiga mais linda!
Gostei da leveza e sensibilidade de suas palavras. A simplicidade é deliciosa e nos leva a refletir que a beleza de viver está nas coisas simples da vida. Sempre. É fato. E, claro, na indiscritível sensação de saborear uma jaboticaba debaixo do pé, no fundo do quintal de sua bisavó sem lavar, in natura. Só tu, a jaboticabeira, a natureza e a deliciosa sensação de sabaorêa-la, assim como a vida...
Post a Comment