segunda-feira, 14 de março de 2011

"DESENHE SEUS PRÓPRIOS PÉS"

Para Edma Nogueira

Cá estou a fazer o contorno dos meus pés, seguindo um antigo conselho seu, o mais sábio que ganhei e pelo qual teria investido uma boa quantia: “Desenhe seus próprios pés.” Observo as extremidades deles e encaro as deformidades não corrigidas na infância – e que um dia você notou, lembra? Seria essa a razão para passos, às vezes, tão vacilantes?


Nunca soube pisar duro, vou na ponta dos pés.

Passo o lápis rente à pele, o seguro firme para não escapar o traço. É para entender melhor os caminhos que meus pés vão apontar. “Vá por onde eles indicarem”: essa foi a segunda parte do seu conselho, que era um post-scriptum em o “Cântico Negro”, de José Régio. Aquele que diz: “Não, não vou por aí! Só vou por onde me levam meus próprios passos...”

E comecei a desenhar pelo pé esquerdo. O direito tem esse pressuposto de boa sorte que me incomoda. Quero o que vier e o que estiver pelo caminho. Dá medo, mas não há melhor modo para aprender, passo a passo, do que nas incertezas do próprio rumo. Garantias demais estragam as surpresas, intimidam o acaso. E o que eu mais quero é perder o fôlego a cada curva da estrada. Esta que meus pés acabam de me indicar.

Já sei por onde vou.

4 Comments:

Edma Nogueira said...

"A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou..."
Friend, fico aqui em uma das curvas desenhadas e percorridas pelos seus pés tortos. Vou, ao meu modo, traçando meu próprio desenho e, para sempre, admirando você muito e cada vez mais. Amo você.

Gabriel Araujo said...

Falando muito de estradas por aqui ultimamente. Uma "canção sobre a doce estrada", "a caminhada para nenhum lugar", e o "desenho dos pés". Será proposital? O que importa sempre é nunca deixar de caminhar.

Vivi said...

Boa férias, Ju. bjs e saudades

Anônimo said...

bonito... :)
bjs

Sandra Motta