terça-feira, 12 de abril de 2011
CRESCER DÓI
Ele não tinha se machucado, não lhe tomaram o brinquedo preferido e ninguém havia se recusado a lhe contar uma história. Mas o pequeno da família, Raul, chorava com toda a força dos seus três anos. Os pulmões pareciam não dar conta e o ar começava a faltar. Não era birra, mas um choro sentido para dar vazão a uma dor insuportável: crescer.
- Tá doendo a perna! Tá doendo! – começou a gritar, de súbito, o pequeno.
Não sei se é sabedoria popular, lenda familiar ou se a tese encontra respaldo na medicina, mas conta-se que quando a perna dói na infância é porque os ossos estão esticando. É assim que a gente aprende que crescer carece de um certo padecimento.
Eu deveria ter mais ou menos a idade de Raul, quando reclamei pela primeira vez do mesmo mal. E segui em lamúrias por toda a infância. Pela altura que tenho hoje, 1,77m, dá para se imaginar o tamanho do meu sofrimento.
Nessas horas aparecia minha avó com um pote de arnica – “um santo remédio” – para fazer uma massagem especial. Era mais um carinho, que, se não fazia a dor da perna passar imediatamente, acalmava a alma e aliviava o medo de crescer.
Depois que soube a verdade sobre o incômodo nas pernas, não sabia se chorava mais de dor ou por temer ser grande. Mas o tempo é implacável. E as dores iniciais nas pernas vão ficando pequenas diante das outras que a gente vai enfrentando sem a mesma disposição de chorá-las em público e gritá-las ao mundo.
Gente grande é tão esquisita, Raulzinho. Arruma dor de cabeça e morre de dor-de-cotovelo. Reclama de dor no bolso ao pagar o médico que dê jeito nas dores da alma. Prefere ter uma dor de barriga por semana a ter uma única dor de coração a vida inteira.
E o pior é que nesta dor de amor não há arnica que dê jeito.
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4 Comments:
Lindo, Ju! Lindo mesmo!
Também tive minhas dores nas pernas quando pequena. E, com a vida, aprendi, juro. Prefiro mesmo a dor de coração a vida inteira.
beijos e saudades
Dói mesmo, friend...
Que lindo o seu texto. Te amo, fica com Deus!
Lá está ele... maior que o banco verde do jardim. E, a seguir o exemplo da tia, certamente ficará maior que o próprio jardim.
passei por isso duas vezes: a minha e a do meu filho. ótimo texto. beijo!
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