segunda-feira, 12 de setembro de 2011

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E se fez o silêncio. E é isso que não consigo suportar. Esse vão que suga as palavras e me coloca a anos luz de você. Um vácuo onde o som não se propaga. Há um universo inteiro sem prosa nem verso, canções e gargalhadas cúmplices, que nos afasta. Embora você esteja tão perto que, se eu sussurrasse ou deixasse escapar qualquer pensamento em viva-voz, você seria capaz de ouvir. Talvez você até me respondesse galante. As palavras gostam de você porque as trata com gentileza e devoção, mas também porque as seduz, pega de jeito para fazê-las suas. Poucos sabem dominá-las com tanta maestria. Por isso eu também gostei de você. Sou uma palavra, mas aquela que escapa. Foge, se esconde arredia, precipitando o ponto final. Foi o que fiz. Deu medo de chegar ao fim. E fui tomando distância a cada palavra não dita, a cada bom dia reprimido, a cada resposta que te neguei fazendo parecer que era uma mera distração. Não era. De propósito, joguei tudo neste poço sem fundo, neste talho que se fez entre nós. E em toda esta mudez só o que grita é a saudade de quando havia toda aquela conversa meio sem sentido que nascia porque a gente buscava um pretexto. Daquele tempo em que músicas diziam o que a gente não tinha coragem de dizer. Daquelas vontades que a gente se confidenciava baixinho no ouvido para ninguém saber do nosso segredo. Dos nossos sons que se propagavam em 40 metros quadrados e abafava todo o mundo lá fora. Daqui, do meu canto, emudecida, fico medindo esta distância toda que eu tomei com você tão perto, imaginando que palavra me levaria de volta a você. E me pergunto: neste vão de silêncio, as palavras não ditas poderiam, talvez, quem sabe, um dia, ter virado um romance?